Auto-suficiência no gás natural terá 20% do investimento

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destacou uma fatia de 20,6% dos investimentos no setor de energia para o projeto de alcançar a auto-suficiência na provisão de gás natural ao mercado interno brasileiro. Esse objetivo não esconde o incômodo provocado pela atual dependência do Brasil de sua maior fonte provedora, a instável Bolívia de Evo Morales. Mas vai além e prepara a criação, até 2009, de um sistema de suprimento semelhante ao que existe na área de energia elétrica, na qual a interrupção em uma das fontes geradoras quase sempre passa desapercebida pelos consumidores.Ao apresentar esses planos, na segunda-feira, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou que o programa vai "assegurar a independência do Brasil em relação ao gás boliviano" e que está embasado em projetos factíveis, em execução. O governo teve a prudência de não incluir propostas ainda em fase de estudos, como a de fornecimento de gás natural pela Venezuela, a partir da construção do Gasoduto do Sul - um projeto que envolverá seis países da América do Sul e que demandará US$ 23 bilhões em investimentos.Os objetivos delineados no PAC aproveitaram integralmente o Plano de Antecipação de Produção de Gás (Plangás), lançado pela Petrobras em meados do ano passado. Esse plano previu o investimento de R$ 40,4 bilhões até 2010 no setor, e de mais R$ 6,2 bilhões nos anos seguintes. Até 2010, esses recursos permitirão ao País alcançar uma produção diária de 55 milhões de metros cúbicos - volume uma vez e meia maior que o atualmente fornecido pela Bolívia. Para tanto, serão injetados investimentos para a antecipação da produção nas bacias de Campos (RJ), de Santos (SP) e do Espírito Santo.O Plangás prevê ainda a construção de dois terminais de regaseificação de gás natural liquefeito (GNL) importado, no Rio de Janeiro e no Ceará, com a capacidade de converter 20 milhões de metros cúbicos ao dia até 2008. Também está prevista a extensão das linhas de gasodutos do País em 4.526 quilômetros ao longo da Costa Atlântica.Com a revisão do seu plano anual de negócios de 2007, a Petrobras decidiu ampliar seus investimentos em R$ 7,542 bilhões - de R$ 47,456 bilhões para R$ 54,998 bilhões. Desse adicional, R$ 3,328 bilhões serão destinados neste ano ao aumento da produção brasileira de gás, as unidades de tratamento de gás de Cacimbas (ES) e de Caraguatatuba (SP) e a construção de gasodutos.As discussões sobre o capítulo de energia do PAC, nas semanas que antecederam o seu anúncio, foram concentradas na definição de um modelo capaz de assegurar a provisão de gás natural a usinas térmicas, indústrias e consumidores do País, sem riscos de "apagões" por razões técnicas ou políticas. Essa preocupação estava embasada em um dado real.A partir de fevereiro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vai deduzir 3.624 megawatts médios do total de energia elétrica disponível no Brasil nos próximos anos - o equivalente a 25% da geração de Itaipu. Trata-se do total de energia gerada por 17 térmicas, que não contam com garantia de suprimento de gás natural.No final do ano passado, o ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, reiterou ao Estado que a auto-suficiência na provisão de gás seria uma "meta factível" e que o governo estava concluindo um plano de contingenciamento para o setor, como o que existe para a energia elétrica. Esse plano traria o seguinte conforto: diante do pior sinistro, como a interrupção de uma das fontes de suprimento, o consumidor nada perceberá.Rondeau explicou, na ocasião, que esse plano não seria uma "couraça" contra os riscos de fornecimento pela Bolívia. Mas a busca de alternativas e a conexão entre todas as fontes disponíveis. Entre as opções estaria a construção das duas unidades de regaseificação e um plano de antecipação da produção do País. Conforme lembrou, 95% da área sedimentar brasileira com vocação potencial para a produção de petróleo e gás continua desconhecida.Colaborou Leonardo Goy

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