Autor de golpe a banco da França ganha liberdade provisória

Ele é suspeito de ser autor de golpes que causaram perdas financeiras de 4,9 bi de euros

Andrei Netto, de O Estado de S. Paulo,

28 de janeiro de 2008 | 19h51

O jovem de 31 anos suspeito de ser autor de golpes que causaram perdas financeiras de 4,9 bilhões de euros ao banco francês Société Général ganhou liberdade provisória nesta segunda-feira. Jérôme Kerviel, operador da instituição, estava detido desde sábado na Brigada Financeira, um braço da polícia da França. Nesse período, prestou sucessivos depoimentos, nos quais reconheceu que tomava posições de risco em nome da empresa.  Kerviel disse que desde 2005 criava operações fictícias para dissimular posições especulativas. A compra de ativos que ele realizou somou, de acordo com o banco, 48 bilhões, que foram renegociados pela instituição entre segunda e quarta-feira passadas em bolsas européias, em especial em Londres e Frankfurt. Segundo Kerviel, a perda de 4,9 bilhões de euros teria sido causada pela "precipitação" do Société Générale em devolver os títulos ao mercado. Kerviel também negou que tenha enriquecido com as operações e disse agir de acordo com os interesses do banco. Ele confirmou que tinha "relativa liberdade" e conhecia os sistemas informatizados de controle por ter trabalhado cinco anos no serviço encarregado de monitorar os "traders".  Se confirmados, os elementos que a Brigada Financeira tem em mãos deverão levar ao indiciamento de Kerviel por falsificação de documentos e violação de sistemas de informática, mas não por corrupção - caso seja comprovado que não houve enriquecimento ilícito.  Detalhes O depoimento de Kerviel confirma em parte os argumentos usados pela direção do Société Générale para explicar o prejuízo. Nesta segunda-feira, em Paris, o presidente do banco no Brasil, François Dossa, definiu Kerviel como "um gênio da informática" que "criou um esquema" para compra e venda de ativos sem o efetivo registro pelo sistema de controle do banco. "Foi exatamente isso que aconteceu. O sistema não é frágil, mas esses hackers conseguem burlar qualquer sistema", disse Dossa ao Estado, após um encontro com o ministro da Defesa, Nelson Jobim. "Hoje, todos os bancos estão varrendo seus sistemas para verificar se não há fatos semelhantes", argumentou. Para Dossa, eventuais alegações de Kerviel de que trabalhava em nome dos interesses do banco são um delírio. "Para se defender, ele falará qualquer coisa." O presidente da filial brasileira reconhece que a imagem do banco foi arranhada, mas pondera que o fraudador foi o grande responsável. "O fato é que não foi uma fraude óbvia." Os 4,9 bilhões de euros perdidos nas operações de Kerviel equivalem a 80% dos lucros do banco em 2007. "Podemos dizer que não houve lucro, ou que lucramos apenas € 800 milhões em 2007. Mas o fato é que nosso capital não mudou", disse Dossa. Para compensar o rombo nas contas, o executivo confirmou que o Société Générale realiza operações de aumento de capital no valor de 5,5 bilhões de euros, para sinalizar ao mercado que a crise será superada com excedentes financeiros. Em contrapartida, analistas de mercado ouvidos pelos jornais Le Monde, Le Figaro e Libération indicaram que o aumento de capital fragiliza a posição dos atuais acionistas diante de uma possível oferta de compra do banco.

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