Autor vê início da ‘era do improviso’ em empresas

Para Leberecht, aos poucos, mercado abre espaço para negócios ‘românticos’; ele cita Airbnb como exemplo

Entrevista com

Tim Leberecht, palestrante e autor do livro ‘Romantize seus Negócios’

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2016 | 06h00

O consultor alemão Tim Leberecht ficou conhecido ao propor um novo jeito de pensar os negócios: em sua visão, para crescer e se solidificar no longo prazo, uma empresa precisa criar conexões “afetivas” com clientes, em vez de ficar presa apenas a números e metas de performance. Após sua experiência no Vale do Silício, Leberecht virou palestrante e escreveu o livro Romantize seus Negócios, publicado no Brasil neste ano pela Rocco. No início deste mês, ele esteve em São Paulo para a HSM Expo.

Leia trechos da entrevista do palestrante ao Estado.

Você trabalhou na Frog, uma empresa de design conhecida por ser inovadora e diferente. Como isso afetou sua visão como palestrante?

O fundador da Frog pensava na empresa como uma maneira de se expressar, de trazer significado ao mundo, e não só de ganhar dinheiro. Na Frog, aprendi que o design pode mudar comportamento e cultura. Parte da Frog, porém, foi adquirida pelo fundo de private equity KKR. E, francamente, fiquei chocado com a falta de respeito que eles mostraram pelo que a empresa havia construído até ali. Foi uma das razões que me levaram a escrever sobre o assunto.

Atrair investidores de peso, portanto, nem sempre é bom para um negócio?

Sim. Há quem desminta isso, mas existem estudos que mostram que os fundos de private equity destroem valor. Se gastamos 70% da nossa vida no trabalho, vale a pena reduzir tudo a números e fatos? Não me entenda mal: eu quero ser bem sucedido no mundo dos negócios e acho que é possível fazer isso sem me transformar numa espécie de máquina.

É possível uma empresa se tornar um grande negócio e reter os valores iniciais?

É difícil. Se você quiser ser 100% eficiente, será difícil ter uma cultura de alta qualidade. Veja o caso da Amazon. É uma máquina movida a dados, funciona bem, mas as pessoas que trabalham lá são infelizes, só ficam por um ou dois anos para colocar no currículo. Não produzem nada em termos de valor humano. Já uma companhia como a Danone consegue fazer coisas diferentes, tem um trabalho importante na área de nutrição com Muhammad Yunus (prêmio Nobel da Paz), busca enriquecer a própria cultura. E isso ajuda também a atrair talentos.

No cenário atual, existe alguma grande empresa que esteja trabalhando a ideia de mais romantismo nos negócios?

Acredito que, em breve, com a emergência da inteligência artificial, a habilidade de sermos carismáticos e imprevisíveis se tornará um diferencial. O Airbnb conseguiu escalar uma ideia romântica, porque está conectando estranhos. As pessoas estão abrindo suas casas para outras que nunca viram na vida. Promove-se a ideia de hospitalidade. O Airbnb pode ser controverso do ponto de vista regulatório, mas é uma ideia romântica que é refletida tanto do ponto de vista de experiência do consumidor quanto de cultura corporativa. Uma espécie de antídoto às Amazons e Ubers do mundo.

Mas, voltando à questão prática, como inserir uma ideia romântica dentro da estrutura para a sobrevivência de um negócio?

Estrutura geralmente é o contrário da ideia de romantismo, que é sempre caótica e pouco previsível. Eu acho que estrutura vai acabar se tornando menos importante para as empresas, pois os ciclos de inovação estão cada vez mais curtos. Assim, as empresas estarão sempre correndo atrás deles, em vez de liderá-los. Está cada vez mais difícil para uma empresa definir uma estrutura, um plano, e segui-lo à risca. Por isso, é importante ter uma visão clara sobre a empresa e qual é o papal dela. Será cada vez mais importante improvisar, mudar de tática, de personalidade. A estrutura está se tornando obsoleta. É importante ter uma visão e também saber adaptá-la, saber intuitivamente quando é a hora de mudar.

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