Alex Silva/Estadão - 5/5/2020
Fila para sacar o auxílio emergencial de R$ 600 em agência da Caixa em São Paulo. Alex Silva/Estadão - 5/5/2020

Auxílio emergencial chegou a 29,4 milhões de domicílios em junho

Cerca de 104 milhões de pessoas, o equivalente a 49,5% da população do País, viviam em residências beneficiadas por programas de enfrentamento à crise causada pela pandemia, segundo o IBGE

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 10h10
Atualizado 23 de julho de 2020 | 20h41

RIO - Cerca de 29,4 milhões de famílias brasileiras receberam algum auxílio emergencial no mês de junho em função da pandemia do novo coronavírus, o equivalente a 43% dos domicílios do País. O resultado representa um avanço de 3,1 milhões de lares beneficiados a mais em relação a maio, com o aumento da cobertura de programas de transferências de renda como o auxílio emergencial e o Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad Covid-19) mensal, divulgados nesta quinta-feira, 23, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“O programa conseguiu atingir os mais pobres, sob essa ótica ele foi bem-sucedido”, avaliou José Ronaldo de Castro Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Metade da população brasileira, cerca de 104,5 milhões de pessoas, vivia em domicílios onde pelo menos um morador recebia um dos auxílios emergenciais. Na Região Norte, 60% das casas receberam o auxílio, e no Nordeste, 58,9%.

O valor médio do benefício recebido no País foi de R$ 881 por domicílio em junho. Entre os 10% mais pobres, com renda domiciliar per capita de até R$ 50,34 mensais, 83,5% viviam em lares que receberam o benefício. Em maio, essa fatia de beneficiados era de 76%. No segundo décimo mais pobre, famílias que recebiam até R$ 242,15 por pessoa mensalmente, o total de contemplados chegou a 86,1% em junho, ante uma fatia de 81,1% em maio. O auxílio emergencial atingiu ainda cerca de 75% das pessoas em domicílios do terceiro décimo de renda per capita, de até R$ 354,18 mensais. “Metade dos gastos do programa converge para os 30% dos domicílios mais pobres do País”, frisou Eduardo Rios-Neto, diretor de Pesquisas do IBGE.

Na passagem de maio para junho, diminuiu a renda média per capita recebida pelas famílias mais pobres, mas aumentou o alcance do pagamento do auxílio. Três quartos dos auxílios pagos ficaram concentrados na metade mais pobre da população. “Não fosse o auxílio, eles estariam em situação pior do que em maio, e isso pode ser pressão do mercado de trabalho”, explicou Maria Lucia Vieira, coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE.

A pesquisa mostra que, em junho, o grosso dos auxílios foram pagos às famílias de baixa renda, mas há incidência também de recebimento de benefícios entre as faixas de renda elevada, o que pode ter relação com as transferências do programa de proteção ao emprego, segundo a pesquisadora do IBGE. A Pnad Covid-19 pode ter o questionário alterado já na coleta de agosto para detectar o tipo de auxílio de governo que as famílias estão recebendo em função da pandemia. O questionário atual foi formulado antes que surgissem diferentes tipos de auxílio dos governos às famílias.

Trabalho

O País tinha 83,4 milhões de trabalhadores ocupados em junho, mas cerca de 14,8 milhões estavam afastados do trabalho. Entre os afastados, 48,4% estavam sem remuneração, o equivalente a 7,1 milhões de trabalhadores. Dos 68,7 milhões que continuavam trabalhando, 8,7 milhões atuavam em trabalho remoto.

No mês de junho, 27,3% dos ocupados trabalharam menos do que sua jornada habitual. A média semanal de horas efetivamente trabalhadas foi de 29,5 horas, ante uma média habitual de 39,8 horas. O rendimento efetivo dos trabalhadores foi de R$ 1.944 em junho, 16,6% aquém do habitual de R$ 2.332.

A taxa de desocupação subiu de 10,7% em maio para 12,4% em junho. O País tinha 38,5 milhões de pessoas desempregadas ou inativas que gostariam de trabalhar. Entre os inativos que desejavam encontrar um emprego, 17,8 milhões alegaram que não procuraram trabalho por causa da pandemia ou por falta de vaga onde residiam, o que sinaliza uma pressão em potencial para a taxa de desemprego nas próximas leituras. Para Cimar Azeredo, diretor adjunto de Pesquisas do IBGE, o desemprego aumentará com a redução do distanciamento social. 

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Deu para pagar o aluguel, mas cortei gastos, diz manicure sobre o auxílio

Luana de Santana atendia 300 clientes no mês, hoje diz que não chegam a 15; ela teme o que pode acontecer após a última parcela do benefício emergencial

Luísa Laval, especial para o 'Estadão', O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 20h40

Mesmo com os programas federais para enfrentamento à crise, boa parte dos trabalhadores ainda sofre com as perdas de renda e com as limitações impostas pelo isolamento social. Para muitos, o mais difícil é lidar com a incerteza com relação ao futuro.

A manicure autônoma Luana de Santana, de 27 anos, atendia cerca de 300 clientes por mês, e diz que hoje mal chegam a 15. Beneficiária do Bolsa Família, ela passou a receber R$ 1,2 mil por mês, mas mesmo assim diz que não é o suficiente para arcar com todos os custos. “Ajudou pouco, mas deu para pagar pelo menos o aluguel. Tive de cortar várias coisas, como alguns itens de alimentação, internet e transporte escolar para as crianças até o fim do ano. Mesmo que a escola volte, não vou levar os meus dois filhos.”

Antes, Luana fazia atendimento tanto na sua casa quanto na de clientes, mas agora as recebe no quintal, para evitar que fiquem em contato com os filhos, de 4 e 10 anos. Se chover, não consegue trabalhar. Mesmo baixando o preço do serviço, ela está pessimista com a retomada da clientela até o fim do ano. “Não adianta retomar neste ano, porque está todo mundo endividado ou com medo, e não vou voltar a ter a mesma receita que tinha antes. Eu tinha pacotes semanais e quinzenais, e agora não tenho praticamente nada fixo. Já estou recebendo a quarta parcela do auxílio, e não sei como vai ser depois que terminar”, diz.

A recepcionista do centro cultural de um banco, Evelyn Souza, de 24 anos, conta que estava na expectativa de retornar ao trabalho nesta sexta-feira, após um mês de férias coletivas e dois de suspensão de contrato. Porém, nesta semana, recebeu o comunicado de que o trabalho continuaria suspenso por mais dois meses.

“É muito ruim, porque você fica em casa, sem perspectiva. Eu planejava buscar outros empregos e mudar de rumo, mas agora estou travada. Meu namorado está desempregado desde o início o ano, recebendo auxílio emergencial, e não consegue achar trabalho”, afirma.

Para lidar com o confinamento, Evelyn passou a fazer transmissões diárias de partidas de jogos eletrônicos, uma forma de se distrair e conversar com outras pessoas. “Mesmo que o meu salário não tenha sido fortemente afetado, pois já trabalhava há um tempo na empresa, é difícil lidar com esses problemas. Fazer transmissões se tornou minha válvula de escape para fugir do isolamento”, conta a recepcionista.

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