Avaliando a recuperação global

Os formuladores globais de políticas econômicas têm se encontrado muito ultimamente. Em meados de agosto, muitos dirigentes de bancos centrais se reuniram em Jackson Hole, Estado de Wyoming, para falar de negócios. Ontem e hoje, ministros de Finanças e dirigentes de bancos centrais do Grupo dos 20 (G-20) países desenvolvidos e emergentes reúnem-se em Londres para avaliar o estágio de recuperação da economia global. Esse encontro tem um sentido preparatório para a cúpula do G-20 marcada para o fim de setembro em Pittsburgh.

Mark Scott*, DER SPIEGEL, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

Para Timothy Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e outras autoridades que foram a Londres, há motivos para otimismo. Uma quantidade sem precedente de programas monetários e fiscais - variando do corte de taxas de juros à compra de dívida corporativa - puxou a economia mundial da beira do abismo. O progresso de indicadores econômicos importantes, como a confiança de fabricantes e a atividade do mercado acionário, também sugere que o pior da recessão pode ter passado.

Agora que os brotos econômicos estão começando a surgir, a reunião em Londres deve se concentrar no que as autoridades pretendem fazer em seguida. Sobre a mesa está uma nova rodada de reformas da regulação financeira, incluindo uma proposta apoiada pelos franceses de redução das bonificações concedidas por bancos, que será tratada com destaque na reunião do G-20 em Pittsburgh. E depois que os países injetaram bilhões de dólares para sustentar indústrias domésticas em má situação, os políticos estão começando a perguntar quando o respaldo financeiro deverá ser contido. Os economistas receiam, porém, que puxar as rédeas antes de uma recuperação mundial ter se firmado poderá eliminar boa parte do trabalho duro dos últimos 12 meses.

"Percorremos um longo caminho, mas acho que precisamos ser realistas", disse Geithner a jornalistas antes do encontro. "Ainda temos um longo caminho pela frente." O desejo das autoridades de mudar de uma triagem econômica para uma estratégia de saída para sua intervenção financeira é compreensível. Desde seus recordes inferiores de março de 2009, o índice S&P 500 deu um salto de quase 50%, enquanto os mercados acionários europeus avançaram cerca de 30% no mesmo período. O declínio do Produto Interno Bruto (PIB) americano chegou ao fundo, França e Alemanha - as maiores economias da zona do euro - reportaram um leve avanço trimestral do PIB entre abril e junho de 2009, e autoridades chinesas confirmaram que o país está a caminho de uma taxa de crescimento de 8% este ano.

Mas antes que as autoridades econômicas comecem a estourar o champanhe, muitos analistas recomendam cautela porque a economia global atravessa a pior recessão de que se tem memória. Jonathan Loynes, economista-chefe europeu da da consultoria londrina Capital Economics, diz que foram os gastos públicos, como os bem-sucedidos esquemas de usar carros velhos como entrada para novos, que impeliram os avanços recentes. Por contraste, o setor privado em todo o mundo ocidental continua às voltas com a dificuldade de obter crédito. Não se espera uma melhora disso antes de 2010 estar quase no fim. "Demorará um bom tempo para voltarmos ao ponto em que as coisas estavam antes da recessão."

Organizar um recuo unificado dos gastos globais com estímulo também poderá ser algo como arrebanhar gatos: difícil no melhor dos tempos, quase impossível no clima vigente. A recessão atingiu países individuais de maneiras diversas. Em resposta, as autoridades econômicas adotaram medidas diferentes para se adequar a circunstâncias diferentes. Nos EUA e na Grã-Bretanha, por exemplo, os problemas do setor de serviços financeiros forçaram os políticos a nacionalizar, ou ao menos a reforçar com recursos públicos instituições periclitantes.

França e Alemanha - cujos bancos foram menos afetados - se concentraram em ajuda estatal a indústrias domésticas debilitadas. E na China bem provida de caixa, o governo está gastando US$ 586 bilhões para melhorar a infraestrutura local. "Não é um problema com uma solução única", diz Gareth Claase, economista europeu do Royal Bank of Scotland (RBS) em Edimburgo.

Uma área em que as autoridades concordam é a da reforma do sistema de regulação financeira. Os excessos do período anterior ao arrocho do crédito - práticas opacas de trading, incentivos a bônus de curto prazo, e uma dependência de mercados de crédito - provocaram críticas do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a seu congênere francês Nicolas Sarkozy.

Políticos americanos e europeus já começaram a promover mudanças. Com base em propostas delineadas na cúpula do G-20 em Londres em abril de 2009, agências de classificação de crédito, operações com derivativos complexos, e investimentos alternativos como fundos hedge e private equity ficaram sobre um guarda-chuva regulatório mais rígido. Esse inclui a presença de membros independentes em conselhos de administração para escrutinar a atividade empresarial e permitir que agentes monitorem a atividade comercial de companhias.

Agora, políticos europeus querem reduções nas bonificações bancárias.

Em 25 de agosto, o presidente Sarkozy anunciou novas restrições aos pagamentos de bônus a traders franceses cujos investimentos falirem. A chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, apoiou prontamente a medida, que será discutida tanto nesse encontro de Londres como na reunião maior do G-20 programada para o fim deste mês. E apesar de bancos baseados em Nova York e em Londres poderem espernear com os limites propostos aos pacotes de remuneração multimilionários, Graham Bishop, um especialista britânico em regulação diz que os ventos sopram a favor de Sarkozy e cia. "Wall Street não é a queridinha do momento, e há um grande ímpeto político por lá para (reduções de bônus)", diz ele.

Mas as autoridades econômicas americanas podem não estar dispostas a ir tão longe quanto as francesas. Em 2 de setembro, Geithner disse que pretendia "ouvir mais sobre as ideias deles", mas recusou-se a expressar sua opinião sobre limitar bonificações. Com tanta coisa para discutir na cúpula de dois dias em Londres, isso não deve surpreender.

Até a economia global finalmente se recuperar, Geithner e outras autoridades globais terão muitas outras cúpulas para burilar os detalhes.

*Marc Scott é jornalista

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