Avança debate sobre 'zona do euro AAA'

Chamado 'núcleo duro' da União Europeia poderia partilhar eurobônus; demais países do bloco teriam de sanear as dívidas para entrar no 'clube'

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h08

As discussões entre Alemanha e França para a suposta criação de uma zona do euro baseada em "core countries", uma espécie de "núcleo duro" da União Europeia, estariam avançando para a criação dos eurobônus, proposta que o mercado defende há seis meses. A medida envolveria apenas os países com nota AAA das agências de rating - Alemanha, França, Áustria, Holanda, Finlândia e Luxemburgo. Os demais membros da zona do euro teriam de sanear as contas antes de serem beneficiados pelos eurobônus.

A proposta de reconfiguração da zona do euro segue em discussão sigilosa nos bastidores de Bruxelas, Berlim e Paris, mas tem tudo para resultar em uma nova subdivisão no interior da Europa, hoje já separada entre os países que adotam e os que não adotam a moeda única. Nesta semana, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, encarregou-se de alimentar os rumores que cercam o tema. "Claramente, haverá duas velocidades dentro da Europa: uma em direção a mais integração na zona do euro e outra mais confederativa na União Europeia", afirmou.

Na quinta-feira, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, foi mais clara: "A reforma pode se limitar à zona do euro", disse ela. "Mas os governos nacionais devem se preparar para se ligar de maneira obrigatória à comunidade." Nas entrelinhas, o chefe de Estado e a chefe de governo passaram o recado: se todos os 27 países da União Europeia não podem - ou não querem, como no caso do Reino Unido - caminhar em direção a mais integração, a zona do euro o fará sozinha.

Para tanto, as negociações estão em curso. De um lado, Alemanha e França desejam que fique clara a disposição dos dois países de liderar todos os 17 membros da zona do euro para fora da crise. De outro, preparam um núcleo para a união monetária. E as últimas especulações indicam para uma reunião dos seis países AAA que adotam a divisa.

Muralha. Esse conjunto passaria a adotar medidas de convergência de suas políticas macroeconômica e fiscal, de forma a reduzir as disparidades e facilitar a governança integrada. Ele também serviria como uma muralha para cercar o euro da instabilidade gerada por grandes economias já contagiadas, como Itália e Espanha, e por países periféricos, como a Grécia.

Essa gestão seria exercida por um gerente escolhido pelos líderes políticos. Nesta semana, o nome de Jean-Claude Trichet, ex-presidente do Banco Central Europeu, veio à tona em Bruxelas como um possível indicado. Esse novo gerente trabalharia em conjunto com o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, que passaria a emitir títulos da dívida do "núcleo duro".

Por ora, o projeto é negociado em segredo e negado com veemência. "O governo alemão não discute em absoluto tal projeto", disse o porta-voz da chancelaria, Steffen Seibert. "Nossas políticas visam a estabilizar a zona do euro em seu conjunto e atacar os problemas pela raiz."

Um tema delicado é a oposição dentro e fora da zona do euro. Em seu interior, personalidades como o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, revelam grande mal-estar com o tema. "Sou alérgico a essas propostas estúpidas feitas por quem deseja criar divisões no seio do euro, que é um grupo sólido", esbravejou durante viagem a Lisboa. "Esta ideia não tem nenhuma chance de ser concluída."

Outro foco de oposição é externo: são os dez países da União Europeia que não adotam a moeda única. Na prática, o grupo é formado pelos dois países que mais demonstram aversão à ingressar na zona do euro, Reino Unido e Dinamarca - os dois com notas AAA. Os demais, como a Polônia, estão em vias de integração.

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