Saul Loeb/AFP
Saul Loeb/AFP

EUA e China assinam fase 1 de acordo para trégua em guerra comercial

Donald Trump afirmou que os dois países dão 'passo importante para uma relação equilibrada e justa'; detalhes do tratado ainda não foram divulgados

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2020 | 14h23
Atualizado 15 de janeiro de 2020 | 20h49

Os Estados Unidos e a China oficializaram na Casa Branca nesta quarta-feira, 15, a primeira fase de um acordo que coloca fim à guerra comercial que se arrastou por quase dois anos. Desde 2018, a disputa entre as duas potências gerou uma escalada na imposição de tarifas pelos americanos a US$ 360 bilhões de produtos chineses, e retaliações por parte de Pequim. Na chamada “fase 1” do acordo, os chineses concordaram em aumentar a compra de bens e serviços americanos – incluindo produção agrícola dos EUA, severamente afetada pela queda de braço entre os dois países – e avançar em mudanças estruturais pleiteadas pelos americanos. Os EUA irão suavizar as tarifas impostas nos últimos meses, mas manter boa parte das sobretaxas em pé, com a ameaça de uma punição extra caso a China descumpra o acordado.

No anúncio do acordo, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que as tarifas ainda em vigor são uma forma de manter as negociações para a chamada “fase 2” das negociações, mas disse que está pronto para retirar todas as sobretaxas assim que os dois países concluírem todas as negociações. “Francamente, a China e eu vamos começar a negociar (próxima fase) muito em breve”, disse Trump. O presidente também fez críticas aos seus antecessores: “Nunca tivemos um acordo com eles (chineses). Eles faziam o que queriam. Eu não culpo a China, eu culpo quem esteve aqui (na Casa Branca) antes”.

O acordo tem três pilares:

  • mudanças estruturais (questões sobre transferência de tecnologia, agricultura, câmbio, serviços financeiros e propriedade intelectual);
  • aumento de compras pelos chineses e
  • redução de tarifas pelos americanos. 

Trump sela a trégua com os chineses a menos de onze meses da disputa presidencial de 2020, que pode conduzi-lo a mais quatro anos na Casa Branca. O setor rural, eleitorado importante do presidente, tem pressionado o governo por soluções sobre a disputa comercial. Os agricultores do meio-oeste sofreram com a retaliação chinesa às tarifas impostas pelos EUA e viram uma queda drástica nas exportações, mas serão beneficiados pelo acordo inicial com os chineses em pleno ano eleitoral. Os chineses prometem a compra de US$ 200 bilhões de bens e serviços dos EUA nos próximos dois anos, sendo um incremento de US$ 12,5 bilhões em produtos agrícolas americanos para além da base de importação de 2017, na casa de US$ 24 bilhões. Isso apenas no primeiro ano do acordo. No ano que vem, o incremento é de US$ 19,5 bilhões sobre a base de 2017. 

Fora o incremento de compras pelo governo chinês, os americanos conseguiram conquistas como abertura de mercado para alguns setores, como o de biotecnologia e o de carne bovina. Os chineses também se comprometem a não forçar empresas americanas a fornecer informações de sua tecnologia para poder operar na China. Os dois países se comprometem ainda a não desvalorizar moedas para obter vantagem competitiva no mercado internacional.   

Em troca, os EUA cancelaram uma nova leva de tarifas que entraria em vigor e reduziram de 15% para 7,5% a sobretaxa de US$ 110 bilhões imposta em setembro. Mas as tarifas de 25% impostas a US$ 250 bilhões de produtos chineses continuam em vigor.

Trump fez da cerimônia de anúncio do acordo uma comemoração de vitória. O evento para mais de 200 convidados na Casa Branca durou mais de 1 hora, durante a qual o presidente fez longos agradecimentos à sua equipe de negociadores, a executivos de grandes empresas americanas presentes e fez acenos aos agricultores. O vice-premiê chinês, Liu He, chefiou a delegação chinesa e leu uma carta de Xi Jinping saudando o acordo.  

O mercado espera por sinais concretos do aumento das exportações, pois o acordo divulgado ao público não discrimina quanto o governo chinês pretende comprar de cada produto. “A assinatura do acordo é positiva para reduzir os atritos entre as duas maiores economias do planeta e dá otimismo aos mercados, mas vários questionamentos permanecem: qual a quantidade a ser comprada de cada produto, por quanto tempo e qual será o andamento da 'fase 2' do acordo entre os dois países” afirma Tarso Veloso, analista baseado em Chicago da ARC Mercosul, consultoria de commodities. O presidente da União Nacional dos Fazendeiros dos EUA, Roger Johnson, ainda hesita em comemorar. O representante dos agricultores vê como um bom sinal o acordo, mas diz que é cético considerando o histórico entre os dois países e a falta de detalhes. “Sem detalhes mais concretos, estamos profundamente preocupados que todo o sofrimento possa não ter valido a pena”, afirmou em nota.

“O questionamento mais importante hoje é se as duas partes vão cumprir o acordo que foi assinado. Com a 'fase 2' longe de sair do papel, uma eleição nos EUA se aproximando e safra recorde de soja sendo finalizada no Brasil, operadores em Chicago, por enquanto, se mostram reticentes que o acordo irá trazer uma demanda gigantesca para os produtores rurais americanos”, afirma Veloso.

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