Avanço agrícola do País deve passar pelo ''desmatamento bom''

Conclusão é de estudo divulgado pelo governo do Reino Unido, com a participação de 400 especialistas

Daniela Milanese, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

O Brasil experimentará forte avanço na produção agrícola nos próximos anos e precisará dispor de mais terra para o cultivo, destacou estudo divulgado ontem pelo governo do Reino Unido. Mas, em vez de condenar o avanço da fronteira agrícola, os pesquisadores acreditam que o País poderá realizar o chamado "desmatamento bom".

As conclusões fazem parte de um amplo estudo sobre agricultura conduzido por 400 especialistas em mais de 35 países, incluindo o Brasil. O governo britânico quis traçar as perspectivas para a produção de alimentos e os impactos sobre o mundo nos próximos 40 anos.

Conforme o estudo, nos próximos 20 anos a produção das principais culturas nacionais avançará para atender o consumo, estimulada também pelo preços das commodities.

A produção de cana-de-açúcar passará de 711,5 milhões de toneladas em 2010 para 1 bilhão de toneladas em 2030. A safra de soja deve sair de 67,7 milhões de toneladas para 100,8 milhões de toneladas, do milho de 55,5 milhões de t para 76,7 milhões de t, do trigo de 6,0 milhões de t para 7,1 milhões de t, do algodão de 3,8 milhões de t para 4,9 milhões de t, e do café de 2,7 milhões de t para 4,2 milhões de t. A produção de carne deve avançar de 9,2 milhões de t para 13,9 milhões de t no período.

Para abarcar toda essa produção, principalmente de cana e soja, o Brasil precisará de uma área de 50 milhões de hectares destinada à agricultura, ou seja, um aumento de 13,5 milhões de hectares em relação ao registrado em 2006. O estudo assume que a terra adicional virá principalmente da utilização de áreas hoje reservadas para o pasto. Mas os pesquisadores admitem a possibilidade de que o plantio avance pela floresta. "A possibilidade de que a área adicional necessária para produzir o nível estimado possa também vir do desflorestamento não precisa afetar negativamente o bem-estar da sociedade", diz o estudo.

Os pesquisadores descartam a competição entre o plantio de alimentos e o de culturas destinadas à produção de biocombustíveis no Brasil. A avaliação é bem diferente da divulgada em julho de 2008, quando um estudo do cientista Ed Gallagher, da Agência de Combustíveis Renováveis do Reino Unido, colocou fogo no debate ao atribuir à produção de biocombustíveis o aumento das emissões de CO2. Esse relatório fez o governo britânico desacelerar o uso do etanol, que atualmente importa principalmente do Brasil.

Segundo os especialistas, uma "política apropriada" pode assegurar que somente o "bom" desflorestamento ocorra. É preciso analisar o uso da terra e não "simplesmente preservar qualquer pedaço do ecossistema da floresta sem considerar seu nível de uso ou tamanho".

Alimentos. O estudo mostra que a produção global de alimentos passará por pressões profundas nos próximos 40 anos. A população mundial deve sair dos atuais 6 bilhões e atingir 9 bilhões até 2050. A competição por terra, água e energia deve se intensificar, juntamente com os efeitos do aquecimento global.

O custo da comida deve subir nos próximos anos, o que aumenta a possibilidade de conflitos. "Nada mais do que um redesenho de todo o sistema é necessário para trazer sustentabilidade", diz o estudo.

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