Avanço chinês abre dilema no Mercosul

O avanço da China é um fato consumado no mundo, e não poderia ser diferente mesmo dentro do Mercosul, o bloco econômico que o Brasil quer liderar, indicaram empresários ouvidos pela BBC Brasil. Ainda assim, para o bem do projeto comum, os países membros deveriam tratar da entrada maciça de produtos asiáticos para os parceiros do bloco, acrescentam.O diretor-executivo do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal), Alberto Pfeifer, explica o dilema entre proteger as indústrias regionais e incentivar a competitividade das empresas: "Queremos ter uma indústria competitiva globalmente ou que garanta seus mercados regionais? Se a idéia é ser um competidor global, temos de aceitar a competição. Se quisermos uma reserva de mercado no plano regional, é preciso evitar a entrada dessas mercadorias", questiona. E alerta: "Mas o protecionismo é uma corrida perdida."Segundo dados da consultoria argentina Abeceb.com, produtos brasileiros têm perdido espaço no Mercosul para mercadorias produzidas na China, em setores industrializados como louças, televisores, guarda-chuvas, calçados e têxtil.Áreas sensíveisCom custos de mão-de-obra e produção mais baixos que o resto do mundo, a China tem deslocado exportações de países industrializados - ou semi-industrializados, como o Brasil - nos principais mercados do mundo.Com um crescimento anual superior a 4% ao ano, dizem os analistas, os países latino-americanos são potenciais compradores das mercadorias chinesas.O diretor da Associação Brasileira das Empresas para Integração de Mercados (Adebim), Michel Alaby, lembra que outro fator a colaborar para a entrada dos produtos asiáticos no Mercosul é a valorização do real, que encarece no exterior os produtos brasileiros.As atenções em relação ao gradual crescimento chinês no Mercosul até agora têm se concentrado apenas nas áreas mais sensíveis do comércio dentro do bloco.Para este ano, o governo brasileiro se recusou a renovar - como queria Buenos Aires - um mecanismo de cotas restringindo as vendas brasileiras de eletrodomésticos de linha branca (fogões, geladeiras e lava-roupas) e marrom (principalmente televisores) para a Argentina.O sistema, acordado em 2003 após meses de duras negociações, visava a permitir a recuperação da indústria de eletrodomésticos naquele país, afetado pela crise de 2001-2002.Na época, os televisores brasileiros representavam entre 70% e 80% do mercado argentino, enquanto que as mercadorias chinesas tinham uma participação "insignificante", de menos de 10%, segundo os dados da Abeceb.com.Hoje, Brasil e China exportam o mesmo volume de televisores - cerca de US$ 30 milhões anuais - para a Argentina. "A indústria argentina vem se recuperando, mas sua capacidade ainda não é suficiente para atender à demanda. Por isso, também cresceram as importações", disse o economista Maurício Claveri.Há três anos crescendo a 9% ao ano, a economia argentina já garantiu ao Brasil 44 superávits consecutivos. ´Triangulação´Michel Alaby afirmou que, embora o avanço chinês não seja "alarmante", é preciso evitar uma "triangulação" do bloco com a China.Grandes empresas do setor calçadista e têxtil, ele disse, estão fabricando mercadorias - e, portanto, realizando investimentos - na China para reduzir custos, e importando as mercadorias de volta para o Mercosul.Para Alberto Pfeifer, "já que estamos falando de integração, temos que pensar num gradualismo, num cronograma de redução das tarifas, de incentivo às indústrias e compensações para os setores que vão ficar desempregados temporariamente".

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