Avanço chinês na Argentina mostra equívoco no Mercosul

A ampliação das importações argentinas da China, em detrimento aos produtos brasileiros, é o resultado de uma política equivocada de comércio exterior entre os dois países do Mercosul nos últimos anos. Segundo o presidente da Câmara de Comércio Argentino Brasileira de São Paulo, Alberto Alzueta, em entrevista à Agência Estado, a invasão dos produtos chineses nos dois países só ocorreu porque faltou uma aliança estratégica que fortalecesse as cadeias produtivas e o desenvolvimento tecnológico da produção. "Se as economias não ficam unidas, fica difícil o estabelecimento de programas em comum", afirma Alzueta, em relação ao espaço deixado pelos países que contribuiu para o avanço dos produtos chineses.Na avaliação Alzueta, os governos não estão facilitando a integração e dificultando a parceria entre os empresários para fazerem acordos estratégicos. "Precisamos sensibilizar os governos e as empresas da importância do fortalecimento das relações entre os países como forma de concorrer contra os produtos chineses. Somente através do aumento da produtividade é que poderemos minimizar o impacto da invasão dos produtos chineses, que já causa desemprego nos dois países", explica.AlternativaO presidente executivo da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE), Paul Liu, disse nesta terça-feira à Agência Estado que tanto o Brasil quanto a Argentina estão priorizando o comércio com China, ao invés do Mercosul. Isso explica, na avaliação de Liu, o resultado do levantamento realizado pela consultoria abeceb.com, divulgado na segunda-feira, que apresenta a evolução das exportações chinesas à Argentina, em detrimento ao Brasil."Os dois países estão fazendo acordos bilaterais com a China", afirmou, destacando que o Brasil também deixou de priorizar as relações com o País vizinho. Liu disse que o alto custo dos produtos fabricados no País, em razão da valorização do real, tem levado a Argentina a buscar novos mercados, entre eles o chinês."As grandes redes internacionais instaladas na Argentina deixaram de comprar produtos exclusivamente do Brasil, que devido a valorização do real não conseguem reduzir seus custos." Segundo Liu, ainda é possível reverter essa tendência, como já houve em outras épocas, porém, para isso, a indústria precisa recuperar sua competitividade. "Os produtos fabricado no Brasil precisam se tornar mais competitivo, já que levam vantagem na qualidade e na garantia."Para Liu, o mercado automotivo pode começar a trazer preocupações aos fabricantes brasileiros, já que as grandes fábricas de carros instaladas na China devem avançar no mercado latino-americano. Ele explica que esse setor está se tornando muito competitivo, com menor preço que o fabricado no Brasil e com a mesma qualidade. "Não se surpreendam se os automóveis fabricados na China começarem a transitar pelos países do Mercosul."Liu ressalta, no entanto, que assim como os mercados latino-americanos estão sendo "invadidos" pelos chineses, há espaço também para negócios no País asiático. Entre os setores que podem ampliar sua participação na China, ele destaca o setor de alimentação e de agronegócio. "A China também se abriu, mas o seu mercado tem que ser conquistado", explica Liu. ReversãoPara Alberto Alzueta, a reversão desse quadro é possível, mas só ocorrerá quando os governos tomarem consciência dos fatos e incentivarem as indústrias e as classes produtivas. "Em vez de ficar discutindo geladeiras, devemos dar competitividade às indústrias dos dois países e colocar salvaguardas aos produtos chineses", ressalta, exemplificando com o setor calçadista, que foi alvo de conflitos entre os países e onde a China passou a dominar o mercado. "Os dois países ficaram brigando entre si e o calçado chinês tomou conta dos dois mercados."Alzueta destaca ainda que fora o agronegócio, os chineses têm potencial para tomar conta de todos os mercados argentinos e brasileiros. "Eles (os chineses) não têm nenhum tipo de freios e estão prontos para dominar todos os setores das economias dos países do Mercosul." Segundo ele, os governos precisamos dinamizar e integrar os negócios dentro do bloco para intimidar a entrada dos produtos chineses.Matéria ampliada às 16h04 para acréscimo de informação

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