Azedou

O mercado financeiro internacional deu ontem resposta azeda aos resultados da última reunião de cúpula da União Europeia - saudada na sexta-feira tanto pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, como pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, como passo decisivo rumo à salvação do euro.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2011 | 03h09

"Ora, os mercados! Mercados não podem chantagear Estados soberanos..." - repetem os políticos e críticos do jogo financeiro. No entanto, o problema aí é que um punhado de governos vendeu aos mercados a soberania dos seus países. Gastaram e se endividaram tanto que agora estão excessivamente dependentes da boa vontade dos compradores de títulos. De pouco adianta neste momento vociferar contra os credores. Tampouco adianta pregar o calote. A cada rombo aberto no casco de um banco é mais dinheiro público que escorre para o ralo.

Além disso, é um equívoco afirmar que os tais mercados financeiros são constituídos tão somente de banqueiros sem alma e sem coração. O mercado somos todos nós que temos uma aplicação financeira, uma apólice de seguro, um fundo de pensão e um plano de aposentadoria complementar. E são também os bancos centrais, que formam reservas internacionais e compram (ou rejeitam) títulos soberanos.

Apesar de considerado passo decisivo em direção ao equilíbrio orçamentário dos países que integram a União Europeia, não há garantias de que o acordo de sexta-feira será suficiente para reduzir pressões sobre países da área do euro. Se tudo correr como o definido no acordo, haverá tolerância para expansão das dívidas nacionais à proporção de 3% do PIB a cada ano. E, no entanto, o quadro de recessão ou de baixo crescimento não muda. Ao contrário, tende a se acirrar. Isso significa que, durante um bom tempo, dívidas nacionais deverão crescer mais do que suas respectivas economias.

Em outras palavras, a demanda por financiamentos seguirá aumentando, num ambiente em que os bancos terão de restringir seu crédito por estarem sendo chamados a reforçar seu capital para enfrentar riscos cada vez maiores.

Nada ainda garante a sustentabilidade das dívidas e é por esse motivo que, ontem, a Moody's - uma das mais importantes agências de classificação de risco - avisou que, ainda no primeiro trimestre de 2012, deverá revisar para baixo a qualidade das dívidas da União Europeia (veja o Confira).

Por essas e outras razões, crescerão as pressões para que o Banco Central Europeu (BCE) passe a agir como emprestador de última instância não só a bancos, mas também a Tesouros nacionais - para que a demanda por títulos se eleve e os juros possam cair.

Por enquanto, não há sinais de que o BCE assumirá esse papel, porque os tratados o condenam e, ainda mais do que isso, porque o governo da Alemanha o veta terminantemente.

No entanto, mesmo que o BCE se disponha a escapar da rígida ortodoxia em que vem atuando, o que se fez até agora para acabar com desequilíbrios dentro da Europa é insuficiente para devolver a tranquilidade aos mercados.

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