REUTERS/Sergio Moraes
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Diretor-geral da OMC sugere 'diálogo' entre Brasil e governo Trump

Roberto Azevêdo defendeu 'pragmatismo' para lidar com os Estados Unidos

Jamil Chade, correspondente

02 Outubro 2018 | 14h00

GENEBRA - O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, sugere que Brasil e outros governos que estejam no radar da administração de Donald Trump estabeleçam um “diálogo” com a Casa Branca. 

Na segunda-feira, Trump criticou a relação comercial com o Brasil e Índia. “O Brasil é outro caso. É uma beleza. Eles cobram de nós o que querem”, disse o americano. “Se você perguntar a algumas empresas, eles dizem que o Brasil está entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro. E nós não os chamamos e dizemos ‘vocês estão tratando nossas empresas injustamente, tratando nosso país injustamente”, afirmou o presidente dos EUA.

Azevêdo afirmou não ter ficado surpreendido com as críticas de Trump contra o Brasil e Índia. “A política americana é conhecida. As pessoas sabem exatamente com o que eles estão preocupados”, disse o diretor da OMC em declarações a dois jornais brasileiros. Trump usou o mesmo discurso nos últimos meses para pressionar por acordos com o México e Canadá, forçar a OMC a iniciar um processo de reforma e ainda levar parceiros como europeus, coreanos e japoneses a dialogar.  

“Eles falam com grande frequência sobre a reciprocidade e sobre o que eles chamam de fair trade (comércio justo). Um dos pontos comuns que está sempre na narrativa da administração americana é de que há uma disparidade muito grande nas tarifas que são cobradas e no tratamento que é dado para as empresas de diferentes países. Eles acham que são muito mais liberais, que dão um acesso ao mercado muito maior do que outros países dão e querem reciprocidade”, explicou. “Não me surpreende que essa seja uma visão, uma abordagem da parte deles”, ponderou. 

“Acho que competiria aos outros parceiros comerciais conversar com eles”, defendeu. Para ele, o diálogo poderia ser bilateral, na OMC ou “onde quer que seja”. “O diálogo não precisa ter um formato único. Pode conversar de várias formas e, nessa conversa, tentar entender as partes”, apontou. 

Segundo Azevêdo, o diálogo permitiria que governos que estejam no foco de Trump possam apresentar suas posições. “Tenho certeza que os países que tem tarifas mais altas ou dão tratamento diferenciado também tem seus argumentos, sobre o porque fazem, o que justifica essas coisas e porque o relacionamento não é assimétrico”, disse. “Então, as partes tem que se ouvir, de uma forma ou de outra. Isso é o caminho”, defendeu o brasileiro. 

Pragmatismo

Azevêdo também se recusou a descrever os comentários de Trump como sendo “preocupantes”.  “Não adianta agente se preocupar com os fatos. É um fato”, declarou. “Essa é a posição deles. Eu sou muito pragmático com essas coisas. Os problemas vão aparecer sempre. As diferenças vão aparecer sempre. A questão é encontrar solução para elas”, disse.

Ao longo dos últimos meses, Azevêdo tem adotado uma postura pragmática diante da administração americana. Apesar de alertar para a crise internacional e a tensão comercial entre os governos, o brasileiro tem mantido os canais de comunicação abertos com o governo Trump.  

Internamente, diante da pressão da Casa Branca, Azevedo passou a defender a ideia de uma reforma completa nas regras da OMC para que as preocupações dos americanos possam ser lidadas. Entre embaixadores, a interpretação é de que o brasileiro fará tudo que esteja em seu alcance para evitar o cenário mais temido: a retirada de Trump da OMC e do sistema internacional. 

Antes de falar com a imprensa brasileira, Azevedo deixou claro em um discurso na OMC nesta terça-feira que a tensão internacional hoje ameaça minar o sistema internacional de regras. Seu apelo é para que os governos e atores que acreditam nas regras que sejam vocais em sua defesa. “O silencio é interpretado como estando de acordo e o entendimento hoje não está garantido”, disse.

Para ele, porém, governos também precisam garantir estruturas para que suas empresas possam ser competitivas no mercado global. Qualquer outra estratégia “fracassaria” e quem pagaria por distorções seriam as camadas mais pobres dos países. 

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