Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Fábio Motta/Estadão
Assim como a Latam, a Azul preferiu ir até o mercado para conseguir aliviar seu caixa. Fábio Motta/Estadão

Azul vai fazer captação para reforçar o caixa sem usar recursos do BNDES

Aérea quer arrecadar até R$ 1,6 bilhão diretamente com o mercado para aliviar os efeitos da pandemia no caixa, após socorro do banco de fomento vir diferente do esperado

Fernanda Guimarães e Cristian Favaro, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 10h00

Sete meses depois de entrar na maior crise da história do setor aéreo, a Azul pretende conseguir liquidez e estar pronta para a retomada com a emissão de debêntures conversíveis em ações, que devem injetar cerca de R$ 1,6 bilhão ao seu caixa. Ao contrário do que se esperava quando a empresa começou a negociar um pacote de socorro junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ao lado de Gol e Latam, a Azul utilizou apenas o desenho elaborado pelo banco de fomento. A decisão, tomada após um processo de discussão que levou meses, foi levar a operação integralmente ao mercado, sem recursos do BNDES.

O processo de socorro das aéreas foi longo. Um dos pontos em torno do qual não houve consenso foi a diluição dos acionistas prevista com o bônus de subscrição (títulos de dívida conversíveis em ações) - o que deixava o empréstimo caro na visão das empresas. Também havia restrição no uso dos recursos provenientes do pacote. O BNDES tinha imposto, segundo fontes, veto do uso de dinheiro para o pagamento de dívidas ou compra de aviões, por exemplo. A justificativa era de que o dinheiro tinha de ser utilizado para a continuidade das operações, dado que se trata de dinheiro público. Agora, em uma emissão que será integralmente privada, a Azul informou que o dinheiro será utilizado para capital de giro, expansão da atividade de logística e outras oportunidades estratégicas.

"Com base da 'tecnologia' ou modelo de instrumento proposto pelo BNDES, as empresas vão pegar todo dinheiro a mercado, preservando recursos públicos da União e do BNDES", disse uma fonte, que falou na condição de anonimato. No começo da crise o banco de fomento negociou com diversos setores afetados, mas as empresas acabaram conseguindo soluções de mercado. O BNDES acabou direcionando sua atuação a pequenas e médias empresas (PMEs), com R$ 65 bilhões distribuídos via Programa Emergencial de Acesso ao Crédito - PEAC-FGI.

Pelo modelo proposto pelo BNDES, os recursos poderiam chegar a R$ 2 bilhões para cada companhia aérea, sendo que 60% viriam do banco, 10% do sindicato de bancos privados e o restante do mercado - essa era uma exigência desde o princípio. Parte do empréstimo sairia com taxa de CDI mais 4% ao ano. Mas o valor subia exatamente por conta do bônus de subscrição: o custo efetivo poderia chegar a CDI mais 14% ao ano. No prospecto da oferta anunciado pela Azul na última segunda-feira, 26, as debêntures têm data de vencimento de cinco anos e irão pagar juros remuneratórios de 7,5% ao ano no primeiro ano, por meio de aumento no valor nominal das debêntures e 6% de juros remuneratórios nos demais anos, a serem pagos semestralmente em espécie.

A Knighthead Capital Management LLC e a Certares Management LLC vão ser os investidores âncoras na emissão da Azul. A Knighthead Capital, por sinal, também participa do grupo de credores que ajudou a compor o empréstimo à Latam, no processo de recuperação judicial da aéreas nos Estados Unidos.

Negociações

Para conseguir driblar a crise dos últimos meses, a Azul promoveu uma dura negociação com fornecedores, arrendadores de aeronaves e funcionários. Somente na folha de pagamento, a empresa vai reduzir as despesas em aproximadamente 40% no segundo semestre, na comparação aos níveis pré-covid, com negociações com sindicatos e licenças involuntárias.

A retomada, entretanto, é um momento delicado para as empresas. Mesmo com todas as medidas de redução, a Azul fechou o segundo trimestre com liquidez total de R$ 3 bilhões, queda de 28% na comparação anual. A demanda continua crescendo.

A Azul havia previsto originalmente consumo de caixa de aproximadamente R$ 3 milhões por dia para o segundo semestre, mas apresentou um aumento de caixa de aproximadamente R$ 0,7 milhão por dia ao longo do terceiro trimestre, conforme dados preliminares e não auditados da aérea. Vitória diante de todo o caos da pandemia. Assim, para o quarto trimestre, a estimativa é uma queima de caixa média de R$ 2,5 milhões por dia.

O cenário fica mais difícil agora para a Gol, já que as concorrentes estão mais capitalizadas. Enquanto a Azul trabalha para captar recursos, a Latam conseguiu, no mês passado, mais de US$ 2,4 bilhões junto a investidores e acionistas, no processo de recuperação judicial nos Estados Unidos. No início da crise, especialistas apontavam a Gol como a companhia em posição mais confortável.

Ainda não está claro como anda a ajuda à Gol via BNDES. A aérea sempre se limita a dizer que negocia com o banco e há uma expectativa de que a operação, com subsídio do BNDES ou não, seja logo anunciada. Depois da Azul, ela era a mais adiantada nas negociações, disseram fontes. Já a Latam já deixou claro que a ajuda do banco de fomento perdeu prioridade, diante da captação feita no exterior.

Gol e Latam foram procuradas para se manifestar, mas não retornaram até o fechamento desta reportagem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Caixa fortalecido da Azul após conclusão de captação joga pressão sobre Gol

Com Latam e Azul colocando o socorro do BNDES em segundo plano para buscar recursos direto no mercado, resta saber o que a Gol pretende fazer para superar a crise

Cristian Favaro e Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 10h00

A Azul deu um passo importante para sair da turbulência provocada pela pandemia de covid-19 e fortalecer o seu caixa ao anunciar o plano de emitir debêntures conversíveis em ações, que devem injetar cerca de R$ 1,6 bilhão na aérea. Ao contrário do que era esperado, a empresa usou praticamente o mesmo modelo proposto pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas conquistou um custo mais vantajoso. Os olhares agora se voltam para a Gol, uma vez que suas concorrentes - além da Azul a Latam - conseguiram levantar recursos importantes para atravessar a crise.

Ao contrário do que se esperava quando a Azul começou a negociar um pacote de socorro junto ao BNDES, ao lado das outras duas aéreas, a Azul utilizou apenas o desenho elaborado pelo banco de fomento. A decisão, tomada após um processo de discussão que levou meses, foi levar a operação integralmente ao mercado, sem recursos do BNDES. Conseguiu atrair para a operação a Knighthead Capital Management LLC e a Certares Management LLC, que vão ser os investidores âncoras na emissão da Azul.

A Knighthead Capital Management LLC, por sinal, também participa do grupo de credores que ajudou a compor o empréstimo à Latam no processo de recuperação judicial da aérea nos Estados Unidos. Mesmo se não houver demanda de outros investidores, os dois âncoras garantirão toda a operação.

"A avaliação final foi de que um instrumento híbrido que mistura tanto a dívida como a ação seria a melhor saída. De um lado, se a empresa jogasse tudo em ação, ocorreria uma diluição muito alta. Já se fizesse tudo por dívida, a empresa continuaria muito alavancada", disse uma fonte que acompanhou de perto o processo, mas pediu para não ser identificada. A proposta desse instrumento híbrido partiu do desenho elaborado pelo BNDES.

"Com base da 'tecnologia' ou modelo de instrumento proposto pelo BNDES, as empresas vão pegar todo dinheiro a mercado, preservando recursos públicos da União e do BNDES", disse outra fonte ao Estadão/Broadcast. No começo da crise, o banco de fomento negociou com diversos setores afetados, mas as empresas acabaram conseguindo soluções de mercado.

No prospecto da oferta divulgado pela Azul, a companhia informa que as debêntures têm data de vencimento de cinco anos e irão pagar juros remuneratórios de 7,5% ao ano no primeiro ano, por meio de aumento no valor nominal das debêntures, e 6% de juros remuneratórios nos demais anos, a serem pagos semestralmente em espécie. O grupo agora vai começar a buscar por interessados. Os investidores âncoras, entretanto, já sinalizaram demanda para a emissão inteira, o que traz garantia ao processo.

Alívio financeiro

No início da crise, a Gol chegou a ser apontada por diversos especialistas e analistas como a melhor posicionada entre as aéreas no Brasil. De abril para cá, entretanto, suas concorrentes acabaram se mexendo e levantaram recursos importantes - e preciosos - para conseguir enfrentar o desafio da retomada do transporte aéreo.

Em dados prévios divulgados ao mercado, a Gol informou que fechou setembro com posição de liquidez total de R$ 2,2 bilhões. O grupo teve de honrar, no início de setembro, com um empréstimo de US$ 300 milhões que era garantido pela Delta. O mercado chegou até a especular que a empresa iria encontrar uma forma de postergar o pagamento por causa da crise, o que não ocorreu.

Muitas dúvidas ainda pairam sobre a ajuda do BNDES ao setor aéreo. Do lado da Azul, fontes próximas das negociações afirmaram que não faria mais sentido para a empresa continuar com as tratativas com o banco de fomento depois de levantar todo esse dinheiro no mercado. A lógica é a mesma para a Latam, que conquistou um alívio financeiro importante depois do empréstimo dentro da recuperação judicial. A dúvida agora é a Gol. A empresa evita dar detalhes sobre as negociações e sempre reforça que o tema está sobre a mesa.

Procurada, a Gol não se manifestou por estar em período de silêncio. Já a Latam disse que continua conversando com o BNDES.

Retomada

De forma geral, o desafio das aéreas agora é conseguir dinheiro para sair da inércia. A demanda por voos no mercado doméstico brasileiro apresentou queda de 55,2% em setembro na comparação com igual mês de 2019, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Apesar do recuo, setembro continuou a tendência de recuperação mês a mês do setor, depois do pior da crise, em abril. No relatório anterior, de agosto, a queda havia sido de 67,5% no ano.

Os analistas do BTG viram com bons olhos o anúncio da Azul. Na avaliação do banco, o movimento tende a fortalecer a posição de caixa da aérea no futuro. "Além disso, acreditamos que os termos obtidos são mais favoráveis do que os oferecidos pelo BNDES uma vez que a diluição potencial é menor (12-14% contra 15%) e a oferta já está ancorada", destacam Lucas Marquiori e Fernanda Recchia, em relatório.

A equipe do banco destaca ainda que a diretoria da Azul tem feito um bom trabalho para reduzir custos e a nova captação representaria um importante passo da empresa para reduzir o seu risco de liquidez. "A alavancagem tem sido uma das principais preocupações dos investidores", apontaram.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.