Daniel Teixeira/Estadão
Corretores trabalham no dia que a Ibovespa acionou o circuito breaker  Daniel Teixeira/Estadão

B3 registra maior queda entre Bolsas globais

Ibovespa já caiu 42% no ano, o pior resultado entre as Bolsas mais relevantes do mundo

Fernanda Guimarães, Matheus Piovesana e Felipe Laurence, O Estado de S. Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

A paralisação da economia por conta dos efeitos do novo coronavírus levou o Ibovespa, o principal índice da B3, a ter a maior queda entre indicadores semelhantes das principais Bolsas do mundo em 2020. A retração chegou a 42% até o pregão da última sexta-feira. As empresas listadas na Bolsa paulista perderam R$ 1,746 trilhão em valor de mercado no período.

Outros índices de Bolsas que estão entre as maiores quedas são o da Rússia (RTSI), com perda acumulada de cerca de 38% desde o início do ano; da Bolsa das Filipinas (-38%); o principal índice da bolsa da Hungria (-36%); e o da Itália (o FTSE MIB) – país que se tornou o novo epicentro da pandemia do coronavírus, mas ainda assim com queda menor do que a registrada pelo Ibovespa (de 33%). Nas Filipinas, as operações da Bolsa local chegaram a ser suspensas na semana passada por tempo indeterminado.

Além da rápida mudança nas expectativas para a economia do País, que deve entrar em período de recessão, analistas apontam pelo menos outra razão para a diferença nos índices de retração: o fato de a Bolsa brasileira entrar só agora em um período de “maturidade”, com a chegada de maior número de investidores pessoas físicas. Com seis acionamentos nos últimos pregões do chamado circuit breaker (as pausas quando as quedas são muito acentuadas), o mesmo número observado em toda a crise de 2008, os recém-chegados teriam passado a vender ações muito rapidamente, o que ajudou a levar o preço ainda mais para baixo.

Uma outra explicação para as perdas recordes é a liquidez maior da Bolsa brasileira em relação a outros emergentes, o que acentua a queda no momento de crise. “Ninguém está negociando fundamentos agora”, diz um operador de mercado. “O mercado entrou numa área de semi-pânico.”

Até antes da crise, a Bolsa brasileira tinha boas perspectivas este ano. “O País era um dos preferidos nas recomendações de bancos estrangeiros, porque iria crescer acima da média dos emergentes, tinha reformas em andamento e estabilidade, com eleições presidenciais ainda distantes”, diz Ronaldo Patah, estrategista para mercados emergentes do UBS. “Mas, quando há pressa para vender, o preço cai rápido.”

O movimento teria sido intensificado pela inexperiência de muitos investidores, que haviam visto apenas o momento de valorização do mercado. “Muita pessoa física entrou no mercado acionário no momento de alta. Pouco tempo depois, vem a crise, e essas pessoas não estavam preparadas para tamanha aversão ao risco”, diz um gestor. No fim de 2018, a B3 tinha 813 mil investidores pessoas físicas. Em fevereiro, momento que eclodiu a crise do coronavírus no mundo ocidental, esse número tinha saltado para próximo de dois milhões.

Em momentos de crise, é comum que os investidores saiam de mercados vistos como de maior risco, caso dos países emergentes, e retornem para ativos considerados mais seguros, como o dólar, que sobe 25% ante o real em 2020. “Essa valorização mostra a corrida por ativos mais seguros”, diz Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos. “A busca pelo dólar não é nem por fundamento da economia americana, é fuga mesmo.”

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Novatos na Bolsa passam por teste de estresse com derretimento do mercado

Com a crise, há quem diga que agora têm ‘estômago para o risco’, outros fogem da aplicação, e os especialistas recomendam cautela

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

22 de março de 2020 | 05h00
Atualizado 23 de março de 2020 | 10h07

O advogado Walter Vechiato sempre guardou parte do salário para a aposentadoria. Conservador, gostava da caderneta de poupança, dos tradicionais CDBs oferecidos pelos bancos grandes e, de vez em quando, arriscava-se em uma Letra de Crédito Imobiliário (LCI), produto isento de Imposto de Renda. Mas, nos últimos tempos, ele passou a se interessar pelo risco.

A taxa básica de juros (Selic), que baliza os retornos das aplicações de renda fixa, começou a cair a níveis antes inimagináveis, e no instante em que ele percebeu que o seu dinheiro estava rendendo menos, passou a prestar atenção na rentabilidade do lado mais “agressivo” do mercado financeiro, o da renda variável. “Fiz alguns cursos presenciais, que os bancos me ofereceram, e comprei minhas primeiras ações em novembro do ano passado”, diz. “Sabia que era um investimento de risco, de longo prazo, mas ninguém poderia imaginar que hoje estaríamos vivendo a crise que estamos vivendo.”

Vechiato ingressou no mercado de ações numa fase em que o interesse pelo tema cresceu muito. Uma combinação de três fatores – a taxa de juros na mínima histórica, a expectativa com o crescimento da economia brasileira e o esforço dos bancos e corretoras para atrair clientes para opções além da velha poupança – fez com que, em abril de 2019, a B3 (a Bolsa paulista) atingisse o primeiro milhão de CPFs cadastrados. Dez meses depois, a Bolsa tinha mais 945 mil novos aplicadores, somando quase 2 milhões de CPFs. O investidor pessoa física vinha sendo o principal responsável pela valorização do Ibovespa, que em 2019 acumulou alta de 31,58%, até encostar em históricos 120 mil pontos antes do carnaval.

Da Quarta-feira de Cinzas para cá, a história é conhecida: a escalada da pandemia do coronavírus, que paralisa a economia, provocou uma sucessão de circuit breakers na Bolsa (mecanismo que interrompe as negociações no mercado para impedir quedas muito bruscas). Nas últimas duas semanas, houve perda de R$ 1,16 trilhão em valor de mercado das 354 empresas com ações listadas no País. “Eu confesso que fiquei assustado, pensei em tirar todo o dinheiro e sair da Bolsa, mas mudei de ideia. As coisas precisam melhorar”, afirma Vechiato, que disse que agora, acredita ter “estômago para volatilidade”. 

Mas nem todos têm esse estômago. O professor Gerson Amorim, por exemplo, percebeu que sofre mais. No fim de fevereiro, ele não resistiu e liquidou metade dos R$ 450 mil que estavam em ações. “Depois eu me arrependi, mas perdi quase R$ 100 mil. A outra parte ficou lá e está encolhendo.”

Para a professora de finanças comportamentais da FIA, Paula Sauer, essa é a pior decisão de um investidor. Mas é a mais comum. “É um clássico do efeito manada: corre primeiro e pergunta depois”, diz. Segundo ela, com interesse maior em torno da Bolsa, boa parte dos novos aplicadores que ingressaram não sabia o que estava fazendo.

Em Santos, o casal de aposentados Cesar e Sandra Buosi estava, de fato, otimista. Eles sempre gostaram de diversificar, mas dentro da renda fixa. De repente, começaram a testar as ações. “Eu estava com tempo mais livre e a gente foi comprando mais na renda variável”, afirma Sandra, que agora não tem mais nenhum centavo em ações. “Quando as ações começaram a cair na Quarta-feira de Cinzas, eu falei, chega, vou voltar para o CDB”, diz Cesar.

Liquidez

Para o especialista em planejamento financeiro José Raymundo de Faria Júnior, da Planejar, o casal Buosi, apesar de ter perdido um pouco do patrimônio, tomou a decisão certa, na hora certa. “Naquele momento, a Bolsa ainda não tinha caído tanto”, diz. Para ele, o cenário é difícil para os investimentos. Ele ainda não recomenda aportes em renda fixa de longo prazo, por achar que a curva de juros pode subir daqui a pouco, e não considera que a Bolsa chegou ao fundo do poço – ela pode descer para 53 mil pontos, diz. “O lugar do dinheiro novo é parado, num (título) de Tesouro Selic, esperando para ver o que acontece. O futuro é muito incerto.” 

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