Soo Hoo Zheyang/Reuters–15/12/2010
Soo Hoo Zheyang/Reuters–15/12/2010

Baidu balança entre China e Wall Street

Gigante chinesa das buscas tenta agradar mercado financeiro e provoca desconfiança no governo chinês, que lançou um buscador rival

Dan Levin, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES / PEQUIM

Fotos de um funcionário do governo numa situação comprometedora aparecem na internet e imediatamente passam a ser difundidas de maneira viral. O tráfego online atinge o pico quando os usuários da rede começam a procurar as imagens com o prazer peculiar com a desgraça dos outros.

Quando a anatomia do deputado Anthony D. Weiner dominou recentemente as manchetes nos Estados Unidos, os curiosos apressaram-se a procurar motores de busca como o Google ou o Bing para bisbilhotar imagens inusitadas do político americano. Mas, quando as imagens de uma câmera de computador que mostravam um burocrata da cidade de Guangzhou, no sul da China, sem roupa chegaram à internet, no fim de junho, a maioria dos que queriam dar uma olhada no seu corpo nu recorreu ao Baidu, o mais conhecido site de busca da China.

Com uma fatia de mercado de 84%, segundo a iResearch, o Baidu pode avaliar exatamente o que a maioria dos 450 milhões de usuários da internet da China procura online, seja o mais recente escândalo político, uma música popular ou a programação dos cinemas. E é um formidável rival de outras companhias, como o Google pode testemunhar com o declínio das suas operações na China, no ano passado.

Mas apesar de sua fantástica posição, o Baidu enfrenta um desafio difícil - contentar tanto os burocratas de Pequim quanto os analistas financeiros de Wall Street, ao mesmos tempo.

A companhia ganhou fama no Ocidente por censurar os resultados de busca, e por suas brigas com os principais selos por sua controvertida prática de manter "vínculos" com músicas pirateadas hospedadas em outros sites da internet, o que agora começa a ser resolvido (ver matéria ao lado). Em fevereiro, o representante do Comércio dos Estados Unidos se referiu ao Baidu como um dos "mercados mais notórios" do mundo em matéria de pirataria e violação da legislação sobre direitos autorais.

Este estigma lá fora não impediu os tribunais chineses, os usuários da internet e os investidores de defender o motor de busca sediado em Pequim. Desde que o Google começou a orientar os usuários chineses da rede para o seu site em Hong Kong, em março de 2010, a parcela de mercado do Baidu cresceu vertiginosamente e o preço de suas ações mais que dobrou.

E a companhia pode procurar expandir-se sem atrair a ira do governo chinês. Eliminou 2,8 milhões de obras que infringiam a lei de direitos autorais de seu serviço de biblioteca online, o Wenku, dias antes de a Agência Nacional Chinesa de Direitos Autorais anunciar que estava investigando a companhia por violar direitos autorais na área de livros.

Alguns dias mais tarde, o Baidu assinou um acordo de licença com a Sociedade de Direitos Autorais de Música da China (MCSC, na sigla em inglês), o órgão oficial que cuida dos direitos de execução, pondo fim, desse modo, a anos de litígios.

Justiça. Os revezes legais do Baidu na China foram interpretados como o reflexo da crescente intolerância das autoridades chinesas com a violação da lei dos direitos autorais. Com o Google fora do páreo, a companhia aumentou sua posição nas buscas pela internet. Mas perdeu em parte o apoio do governo chinês porque não existe mais a ameaça de uma empresa estrangeira ganhar terreno no campo politicamente tenso da informação online, afirmam analistas.

Agora, enquanto se torna ainda mais forte sem concorrentes reais em vista, o Partido Comunista verá talvez como causa de preocupação o quase monopólio exercido pelo Baidu.

"O Baidu é seu maior inimigo", disse Duncan Clark, executivo da BDA China, uma empresa de consultoria em tecnologia. "Agora que ele venceu o espantalho, tornou-se tão grande que está trombando com o Partido".

Segundo Clark, a solução do governo para um problema atual - o declínio do público de televisão, particularmente entre os jovens, que preferem o entretenimento online - passa diretamente pelo Baidu.

"A imprensa estatal gostaria de ter o imenso alcance do Baidu", ele disse, observando que este e outros sites populares da internet permitem que os usuários chineses tenham acesso à programação e ao noticiário ocidental que nem sempre têm as mesmas prioridades do governo. "O partido quer decidir qual deve ser a programação", ele disse.

E como o único monopólio que pode existir na China é o do Partido Comunista, quando uma companhia cresce demais, o próprio governo cria imediatamente a concorrência. No mês passado, fez exatamente isto, e o Diário do Povo, o órgão oficial do partido, lançou o Jike.com, um motor de busca rival.

Resta ver se os usuários chineses frequentarão um porta-voz oficial para as suas necessidades online. Mas o Baidu imediatamente menosprezou os concorrentes. "Privados ou estatais, nacionais ou estrangeiros, os concorrentes não irão nos dizer o que os usuários podem dizer", afirmou Jennifer Li, diretora financeira do Baidu. "Atendemos diariamente a mais buscas na China do que qualquer outro motor de busca em qualquer mercado nacional. Este volume de dados sobre as intenções dos usuários permite ter uma visão realista de suas necessidades e de como satisfazê-las."

Talvez seja isso mesmo, mas a companhia ainda não pode se dar ao luxo de ficar sentada olhando grandes companhias de internet chinesas, como Sina, Tencent Holdings e Alibaba, expandirem seu domínio sobre setores cruciais como o dos microblogs, do videogames e do e-commerce. E esta é uma grande preocupação.

"O Baidu é ainda um motor que tem um único produto, a busca, e quer ir muito além", disse B. Michael Clendenin, diretor gerente da RedTech Advisors em Xangai. Ultimamente, a companhia andou muito ocupada ganhando dinheiro com a publicidade em mecanismos de busca e investindo em vários produtos novos que provavelmente apelarão para os hábitos online mais populares. "Estão jogando macarrão na parede para ver se gruda", comentou Clendenin. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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