Baixo crescimento e medo de deflação levam 25 bancos centrais a cortar juros

Também associados à queda do preço do petróleo, cortes influenciam política em outros países, que não querem perder competitividade nas exportações; quadro é o inverso do que ocorre no Brasil

Marcelo Osakabe, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2015 | 18h26

SÃO PAULO - A queda dos preços do petróleo, o baixo crescimento econômico, o risco de deflação e os recentes efeitos da política monetária em importantes atores mundiais - como a zona do euro - levaram 25 bancos centrais a cortarem suas taxas básicas de juros desde o início deste ano. Mesmo com projeções de recessão e sob a influência da queda do preço do petróleo, o Brasil apresenta o quadro inverso: o Banco Central, em uma tentativa de conter a alta generalizada dos preços, elevou a taxa Selic a 12,75% no início do mês

O movimento começou logo no dia 1º de janeiro - quando o Usbequistão reduziu a taxa de juros de referência para 9% - e teve seu último capítulo nesta terça-feira, 24 - quando a Hungria anunciou um corte de 0,15 ponto porcentual na taxa básica, para 1,95%. Citando a queda dos preços das commodities, o Banco Central da Hungria decidiu reduzir os juros para impulsionar a inflação e a economia. "O conselho acredita que a inflação vai permanecer significativamente abaixo da meta neste ano", disse a entidade em comunicado.

A queda dos preços do petróleo, que viu sua cotação derreter pela metade desde meados do ano passado, foi o motivo mais citado pelas autoridades monetárias ao justificarem suas ações. Em países como Egito, Quênia, Turquia e Indonésia, a energia mais barata possibilitou ao banco central uma redução do esforço necessário para impedir que a inflação ultrapasse a meta estabelecida. 

A maioria dos países dessa lista, entretanto, parece lutar contra uma conjunção de crescimento fraco e inflação abaixo da meta - um risco que se agrava com a queda dos preços do petróleo. Alguns, como Austrália, Indonésia, Canadá, Tailândia e Coreia do Sul, reduziram suas taxas de juros para estimular suas economias, que sofrem com a queda do valor das exportações de commodities ou de produtos industrializados.

Também há alguns bancos centrais que apontam a redução dos juros em outros países, com consequente enfraquecimento das respectivas moedas, para justificar uma ação. "Quase todos os bancos centrais do mundo estão correndo para afrouxar a política monetária. O Banco da Coreia não quer ficar de fora porque as exportações coreanas estão sendo prejudicadas com esse ativismo", disse Park Sang-hyun, economista da HI Investment & Securities, após a autoridade monetária sul-coreana reduzir a taxa de juros para 1,75%, o patamar mais baixo de sua história.

Os exemplos mais dramáticos vêm da Europa, onde países ao redor da zona do euro lutam para conter a apreciação de suas moedas depois que o Banco Central Europeu (BCE) decidiu implementar o programa de relaxamento monetário (QE, na sigla em inglês), que deve injetar ao menos 1,1 trilhão de euros na região até setembro do ano que vem.

Em janeiro, a Suíça surpreendeu os mercados ao levar os juros de referência para -0,75%, além de acabar com a cotação máxima do franco suíço, que desde 2011 era mantido em um patamar de 1,20 por euro. A Dinamarca, cujo banco central também tem uma política de atrelar a cotação da coroa dinamarquesa ao euro, também levou, em quatro reuniões seguidas, seu juro de referência para -0,75%. Ao contrário da Suíça, entretanto, o BC dinamarquês prometeu defender o instrumento. O atrelamento ao euro "é um elemento indispensável da política econômica na Dinamarca desde 1982", disse o presidente do Banco Central, Lars Rohde, na ocasião, em um comunicado.

Na semana passada, a Suécia cortou os juros pela segunda vez neste ano, para -0,25%, na tentativa de reduzir a apreciação da coroa sueca. O banco central também incrementou o seu próprio programa de compras de ativos, anunciado em fevereiro, para 30 bilhões de coroas. "O Riksbank está pronto para afrouxar ainda mais a política monetária, mesmo entre as reuniões regulares, caso isto seja necessário para assegurar que a inflação atinja a meta", afirmou a entidade.

Deflação. Para Ed Yardeni, da consultoria Yardeni Research, o risco deflacionário que ameaça boa parte das economias mais importantes do mundo é causado pela mesma ferramenta que está sendo usada para solucioná-lo.

"Dinheiro fácil é deflacionário", escreveu Yardeni, em referência à política de juros baixos e programas de estímulos adotados por vários bancos centrais. A ideia é aparentemente contraditória, ele admite, uma vez que essas políticas deveriam fazer o contrário, estimular a atividade econômica e induzir a aceleração da inflação. No entanto, o consultor acredita que esse dinheiro fácil "é perversamente deflacionário, uma vez que estimula a oferta mais do que a demanda".

Yardeni usa os números dos 34 países da OCDE, o clube das nações mais ricas do planeta, para demonstrar seu ponto de vista. Em janeiro, a inflação do grupo ficou em 0,5%, mesmo com toda a liquidez injetada pelo Federal Reserve e outros bancos centrais. "Esse dinheiro fácil tem sido disponibilizado há tanto tempo pelos maiores BCs do mundo que ele parece ter perdido a capacidade de impulsionar a demanda", disse. 

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