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José Roberto Mendonça de Barros
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Baixos incentivos à carreira reduzem a produtividade

Nos países onde há crescimento e forte progresso técnico, como Estados Unidos e Alemanha, vemos que a força de trabalho está se dividindo em duas. Por um lado, há os trabalhadores que absorvem e comandam as novas tecnologias, têm alta produtividade e grandes benefícios financeiros; por outro, os de menor nível e qualidade de educação, que vão ficando para trás. Não é para menos que o tema da desigualdade tenha voltado à tona com tanta ênfase no mundo desenvolvido. (Para uma referência recente a propósito do tema, sugiro o artigo Robots at Work, de G. Graetz e G. Michels, CEP Paper 1335, de março de 2015.)

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2015 | 03h00

No Brasil já é hoje fartamente conhecido que temos um sistema econômico pouco inovador – fato mais uma vez comprovado por pesquisa recente da CNI sobre inovação com 100 líderes empresariais – e um baixo crescimento da produtividade. A mão de obra tende a ser bastante despreparada. Recentemente, o presidente da Fiat, Clodorvino Belini, disse à revista Exame que a montadora está há 35 anos em Betim, mas continua precisando treinar o pessoal para coisas básicas, como conceitos elementares de matemática e língua portuguesa.

Além disso, os custos salariais totais crescem de forma autônoma no Brasil. Em momentos como o atual, a falta de flexibilidade é bastante prejudicial e, certamente, será um dos elementos a implicar numa elevação forte da taxa de desemprego. Aqui na MB, projetamos para o final do ano uma taxa de desocupação (dessazonalizada) próxima a 10%.

A meu ver, a dificuldade em elevar a produtividade tem sua base nas limitações para permitir aos jovens a construção de uma trajetória que possibilite o progresso contínuo ao longo da vida de trabalho. É muito difícil construir uma carreira no Brasil. Aqui vão alguns obstáculos que os profissionais encontram ao longo da vida.

O ponto de partida, infelizmente, é muito ruim. Os anos iniciais das escolas são muito pouco atraentes. A experiência varia muito de escola para escola e temos aqui e ali bons exemplos, mas a média é, sem dúvida, baixa. Professores e diretores inadequadamente preparados, respeitados e recompensados, limitações no material escolar e na disponibilidade de equipamentos de TI, e participação menor do que a necessária dos pais são elementos que contribuem para um aprendizado muito aquém do desejado. Como enfatizam especialistas como Naércio Menezes, hoje sabemos da importância de que os jovens desenvolvam habilidades sócio-emocionais fundamentais para o aprendizado e para o desenvolvimento de uma carreira. Pouquíssimas escolas estão atentas a isso.

Os problemas persistem no estágio seguinte. Atualmente, 14% dos jovens entre 15 e 24 anos não trabalham nem estudam. Grosseiramente, 70% são mulheres e 30% são homens. Este contingente tem escassas possibilidades de construir uma carreira quando for ao mercado, dado seu despreparo. Juntamos a falta de qualificação com a falta de incentivo escolar em largas faixas da juventude.

Também são pequenos, senão inexistentes, os incentivos a integrar os programas tipo Bolsa Família e o emprego formal. Como declarou o conhecido especialista Ricardo Paes de Barros em entrevistas recentes: “Percebe-se que os jovens ou os adultos muito jovens – o pessoal de 25 a 45 anos, que têm baixa escolaridade – não estão conseguindo trabalho, não conseguem acessar o mercado formal. (...) Queremos integrar os sistemas de transferência de renda, de modo a incentivar as pessoas a conseguir emprego formal”.

Mesmo entre os profissionais que ingressam no mercado, o desenvolvimento fica comprometido por características nossas. Por exemplo, o Brasil tem uma enorme taxa de rotatividade dos trabalhadores. Como disse recentemente, José Pastore, a elevação dos gastos com seguro desemprego em momentos de elevação recorde da ocupação, que ocorreu até o ano passado, é algo que nunca fez muito sentido. Muita gente troca frequentemente de trabalho com intervalos no seguro desemprego.

Por essas e outras razões, uma parte substancial dos jovens não desenvolve uma carreira até os 35 anos, e vai ficando para trás. As posições em empresas que investem em novas técnicas, máquinas e sistemas vão ficando inacessíveis a um contingente enorme de pessoas.

Ao mesmo tempo, a elevação do protecionismo, marca registrada dos últimos anos, gera a dependência de anabolizantes (como crédito subsidiado), e resulta em baixos estímulos a elevar a produtividade. Nos últimos anos, uma viagem a Brasília muitas vezes valeu mais que uma máquina nova.

Talvez a única exceção venha do agronegócio. O setor conta com escolas de qualidade e tem na competição, na melhoria técnica e na elevação do capital humano e físico o centro do seu modelo de negócio. Não é por acaso que, se excetuarmos as grandes áreas metropolitanas, o IDH é maior em média nos municípios onde predominam as principais culturas agrícolas.

Então ficamos assim: em países como Estados Unidos e Alemanha o progresso técnico e a renda média avançam, mas uma parte significativa das pessoas não acompanha; no Brasil, vemos uma divisão semelhante entre os que avançam e os que não conseguem os atributos mínimos para progredir. Mas com uma diferença importante: continuamos sem incorporar a inovação para valer na economia. A despeito da melhora na distribuição desde os anos 90, pela rede de proteção construída (salário mínimo, programas de transferências de renda e regras de dissídio), o progresso técnico e a produtividade não avançam, inclusive pelo despreparo da força de trabalho, e os custos sobem sem parar. Em consequência, o ciclo crescimento/crise é frequente o suficiente para nos manter no grupo das eternas promessas. É o que está mais uma vez claro nos dias de hoje, mesmo com o bônus do pré-sal, que tanta euforia gerou nos governantes no idos de 2007/2008.

É um sonho achar que apenas a desvalorização cambial (que, todavia, é indispensável) e alguma redução de juros vão resolver o problema da produtividade e da competitividade. Temos que avançar em questões estruturais, algumas das quais ligadas aos temas da educação e da carreira aqui mencionados. Não quero soar exageradamente pessimista, mas alguém está vendo qualquer sombra de avanços desse tipo em curso no Brasil?

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