Balança comercial deve favorecer Argentina, diz Fiesp

A desvalorização do peso, que torna os produtos argentinos mais competitivos internacionalmente, o fraco movimento no mercado interno desse país e a continuação das importações brasileiras de trigo e petróleo, além de outros produtos, deverão causar um superávit cada vez maior para a Argentina na balança comercial com o Brasil, afirmou hoje Maurice Costin, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp. "O nosso déficit com a Argentina em 2001 foi de cerca de US$ 1 bilhão e pode chegar a US$ 2 bilhões este ano", disse. Se isso acontecer, a meta brasileira de um superávit comercial de US$ 5 bilhões em 2002 fica comprometida, lembrou Costin. "Com as novas medidas econômicas, nossas vendas para a Argentina vão continuar caindo, porque não há mercado. Antes, as vendas eram de US$ 500 milhões por mês e agora são de US$ 300 milhões, e devem ser daí para baixo nos próximos meses", disse. Costin afirmou ter gostado das medidas anunciadas pelo governo argentino, porque farão "o país lentamente sair do buraco, voltar a crescer". O diretor da Fiesp fez um alerta para a questão da renegociação de contratos em dólar, principalmente os de tarifas públicas. "As tarifas estão sendo transformadas em pesos, o que é uma quebra de contrato com as concessionárias de serviços públicos. Os investidores poderão querer questionar isso na Justiça", afirmou. Costin teme que os investidores internacionais possam rever os investimentos programados na América Latina por causa disso. "Apesar do descolamento do Brasil da Argentina, temo que isso possa acontecer aqui também", concluiu. Força no médio prazoApesar da esperada queda das exportações do Brasil para a Argentina, de imediato, a corrente de comércio dos dois países deverá se fortalecer no médio prazo. A avaliação é do coordenador de política econômica da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Flávio Castelo Branco. O economista acredita que a Argentina poderá começar a dar "sinais de vitalidade" a partir do segundo semestre deste ano."A curto prazo haverá realmente um impacto negativo no fluxo de comércio, já que o câmbio encarece os produtos brasileiros na Argentina. Mas se a economia argentina for retomada no médio prazo, este crescimento exigiria mais importações por parte deles", afirmou Castelo Branco. Ele ressalta, contudo, que para superar a recessão o país vizinho terá de reconstruir o que chamou de arcabouço institucional de política monetária e fiscal, o que, segundo ele, ainda está em estágio muito inicial.Com a desvalorização do peso, reconhece Castelo Branco, as indústrias argentinas têm condições de colocar mercadorias no mercado brasileiro com preço mais baixo, em especial produtos alimentícios e derivados de leite e carne, assim como têxteis e calçados. O efeito colateral, contudo, será o aumento de custos ligados à moeda americana, que encarecerão a produção. A desvalorização gerará inflação no país. "O que é preciso ver é a desvalorização real e o potencial aumento de custos com o processo inflacionário que venha a se instalar", disse o economista brasileiro.Leia o especial

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