Balança comercial pode ser prejudicada

A escalada no preço do barril de petróleo em decorrência da instabilidade política no norte da África e no Oriente Médio pode colocar em risco o superávit da balança comercial. Além de representar uma possível trava à recuperação das economias da Europa e dos EUA, derrubando a demanda por commodities, a elevação da cotação do barril também pode puxar para baixo o preço desses produtos.

Glauber Gonçalves, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

"Esse cenário gera dúvidas sobre o Brasil, pois a queda na cotação das demais commodities tem impacto direto nas nossas exportações", avalia o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. "O que hoje é superávit pode virar déficit", alerta, lembrando que cerca de 70% da pauta de exportações brasileiras são commodities.

Com as perspectivas de que a demanda interna continue aquecida, a tendência é de que as importações continuem ganhando espaço, complicando ainda mais o cenário em caso de agravamento das turbulências no norte da África e no Oriente Médio e a consequente escalada nos preços do barril de petróleo.

Importações crescendo e exportações estagnadas ou em queda podem acabar pondo em xeque o resultado das contas externas. "O saldo em conta corrente hoje é negativo em cerca de US$ 60 bilhões, com superávit estimado de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões. Se zerar o superávit ou ele virar déficit, agravam-se as contas correntes e o Brasil passa a ser tomador de dinheiro no mercado internacional."

Se o clima é de apreensão em relação às demais commodities, para a indústria nacional de petróleo a situação não é desconfortável. No curto prazo o petróleo mais caro pode prejudicar a Petrobrás, já que a política de não reajustar no mercado interno lhe deixará o ônus de assumir a diferença entre os preços internacionais e domésticos. Por outro lado, a estatal pode ter ganhos com a cotação elevada.

"O petróleo mais alto é bom, porque ajuda a viabilizar o pré-sal, pois a empresa vai se valorizar na bolsa e ter oportunidade de aumentar sua capacidade de financiamento", avalia o especialista em petróleo Adriano Pires. A demanda por gasolina, turbinada pelo impulso do governo às vendas do setor automobilístico em 2010 via incentivos tributários, pode, no entanto, forçar a Petrobrás a reduzir ou até mesmo estancar as exportações do combustível, avalia Castro.

Segundo Pires, em 2010, pela primeira vez nos últimos 30 anos, o Brasil importou mais derivados do que petróleo. Ele acredita que pelo menos nos próximos três anos o País vai ser autossuficiente em petróleo - ou até mesmo um exportador em pequena escala -, porém um importador de gasolina. "E importar derivados é ruim em cenário de preço de petróleo alto", avalia.

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