Márcio Fernandez/ Estadão
Márcio Fernandez/ Estadão

Balança comercial tem déficit de R$ 1,74 bilhão em janeiro, pior resultado para o mês em 5 anos

Queda nas exportações de petróleo e grãos contribuiu para saldo negativo; segundo governo, coronavírus ainda não é encarado como um problema comercial

Lorenna Rodrigues, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2020 | 15h53

BRASÍLIA - A balança comercial brasileira registrou déficit de US$ 1,745 bilhões em janeiro, de acordo com os dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério da Economia. Foi o primeiro resultado deficitário para um mês desde fevereiro de 2015 e é o menor valor para o primeiro mês do ano em cinco anos.

Quando as exportações superam as importações, o resultado é de superávit. Quando acontece o contrário, o resultado é de déficit.

O saldo de janeiro é duas vezes menor do que o registrado no mesmo mês do ano passado, quando o resultado foi positivo em US$ 1,697 bilhão. No mês passado, as exportações somaram US$ 14,430 bilhões, uma queda de 20,2% ante janeiro de 2019. Já as importações chegaram a US$ 16,175 bilhões, uma queda de 1,3% na mesma comparação.

No mês, houve uma queda nas vendas de produtos manufaturados (-27,7%), semimanufaturados (-25,2%) e básicos (-11,9%). Entre os manufaturados, houve queda principalmente nas exportações de plataforma de petróleo, laminados planos de ferro/aço (61,5%), máquinas e aparelhos para terraplanagem (-50,4%), polímeros plásticos (-22,1%) e autopeças (18,4%).

Pelo lado das importações, houve recuo nas compras de combustíveis e lubrificantes (-15,3%) e bens intermediários (-3,4%), enquanto subiram os desembarques de bens de consumo (6,9%) e de capital (6,6%).

No ano passado, a balança comercial registrou superávit de US$ 46,6 bilhões. Com isso, o saldo positivo, assegurado principalmente pela exportação de produtos básicos, ficou 19,6% abaixo do de 2018.

A expectativa do mercado financeiro para este ano é de nova queda do saldo comercial. Segundo pesquisa realizada pelo Banco Central na semana passada, a previsão para 2020 é de um saldo positivo de US$ 37,3 bilhões nas transações comerciais do país com o exterior.

O Banco Central, por sua vez, prevê um superávit da balança comercial de US$ 32 bilhões neste ano – com exportações em US$ 225 bilhões e compras do exterior no valor de US$ 193 bilhões.

Fatores

Dentre os motivos que causaram o déficit, está a queda nas exportações de petróleo e grãos, a importação de plataformas de petróleo e uma base inflada de preços em 2019.

“O mês de janeiro é sazonalmente baixo, mas esse menor movimento de grãos é atípico. Esperamos embarques de grãos mais fortes nos próximos meses”, espera o subsecretário de Inteligência e Estatísticas de Comércio Exterior, Herlon Brandão.

Na quinta semana de janeiro, houve ainda a importação de duas plataformas de petróleo, totalizando US$ 2 bilhões. Além disso, contribuiu para o resultado negativo a base mais alta de comparação.

Em janeiro de 2019, houve exportações de plataformas de petróleo no valor de US$ 1,3 bilhão, além de recorde nas vendas de celulose no período (US$ 1 bilhão), o que inflou a base de comparação.

No mês passado, houve queda de 33,2% nas vendas de soja e 41% na de milho, além de recuo de 29,2% na exportação de petróleo cru. Em relação aos grãos, Brandão destacou que, por questões climáticas, houve atraso no plantio e na colheita dos grãos, o que resultou em queda nos embarques.

“A desaceleração da economia mundial e a queda nos preços dos produtos também impactou as exportações brasileiras”, avaliou.  

Pelo lado da importação, apesar da queda em janeiro (-1,3%), Brandão ponderou que há um aumento de 4,5% em volume, o que denota recuperação da economia brasileira.

Para os próximos meses, o subsecretário acredita que a demanda interna pela soja continuará aquecida, já que é insumo para rebanhos brasileiros e a exportação de carne está crescendo incentivada pela alta nos preços do produto. Isso deverá impactar as exportações de soja.

Já a assinatura de um acordo comercial entre Estados Unidos e China não preocupa Brandão. “Não vejo isso como grande fator que afeta produtos brasileiros”, afirmou.

Coronavírus

O governo brasileiro monitora possíveis impactos do coronavírus nas exportações para a China, mas ainda não identificou nenhum efeito, afirmou o subsecretário. “Conversamos com alguns exportadores e não há relato de impacto nas operações”, disse.

Brandão explicou que mesmo as restrições de contato com chineses não afetam as operações portuárias, que são automatizadas. Ele ressaltou, no entanto, que os efeitos na economia chinesa, no entanto, poderão afetar o Brasil.

“A China é o principal parceiro comercial de sete em cada 10 países. Pode ter um efeito espalhado por todos os países do mundo e afetar o Brasil”, admitiu.

Para Brandão, esse impacto pode se dar em menor escala, já que o Brasil exporta principalmente produtos alimentícios. Esses produtos tendem a ser menos afetados pelo encolhimento da produção brasileira do que insumos industriais. Já o minério de ferro, que também é vendido do Brasil para a China, poderia sofrer com a queda na demanda.

Em janeiro, as exportações brasileiras para a China caíram 9,3%. As vendas para o país, no entanto, já vinham sendo reduzidas principalmente por conta da peste suína, que reduziu a demanda pela soja brasileira, utilizada como ração de porcos pelos chineses.

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