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Balas na agulha

Não se consumou o leilão direto de dólares que o Banco Central realizou ontem.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2011 | 03h08

Nos últimos 30 meses, o Banco Central só comprou moeda estrangeira, não vendeu. De lá para cá, as reservas externas saltaram de US$ 209 bilhões para US$ 351 bilhões. Desde abril de 2009 não se realizava um leilão desse tipo. Por que, então, esse deu chabu? E por que o Banco Central sentiu necessidade de atuar agora na ponta da venda de dólares?

O leilão não se completou porque o Banco Central achou baixa demais a remuneração oferecida pelos interessados. Mas isso não significa que o leilão tenha fracassado. Muito provavelmente o objetivo não foi produzir um fornecimento de dólares, mas avisar o mercado de que as autoridades da área cambial estão dispostas a intervir para suprir eventual escassez de moeda estrangeira. "O Banco Central tem muita bala na agulha" - advertia há dois dias o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

A rigor, se completada com repasse de dólares, a operação de ontem deveria ter sido como um empréstimo de curto prazo de moeda estrangeira. Foi um leilão com cláusula de recompra. Nos dias 18 de janeiro e 16 de fevereiro de 2012, os tomadores de dólares deveriam devolvê-los ao Banco Central.

Alguns observadores vinham reclamando da falta de moeda estrangeira no mercado. E há, em princípio, algumas razões para isso. No final de cada ano, começa a temporada de intensificação das remessas ao exterior de resultados obtidos pelas filiais de empresas estrangeiras sediadas no Brasil. Para isso compram dólares no câmbio interno. O momento poderia ser, também, de mais procura por financiamentos externos, num ambiente de quase estancamento do crédito no exterior. Mas, ontem, ficou demonstrado o baixo interesse por dólares no câmbio interno.

Mas há outra maneira de avaliar o leilão aparentemente pipocado de ontem. Até há alguns meses, o objetivo da compra de dólares pelo Banco Central havia sido impedir a excessiva valorização do real (baixa do dólar no câmbio interno). Ou seja, foi para isso que, de abril de 2009 para cá, o estoque de reservas externas aumentou 67%. Se, de uma hora para outra, os dirigentes reverteram seu jogo, ficou claro também que o interesse agora passou a ser de conter a excessiva desvalorização do real. A partir de setembro, a cotação do dólar subiu nada menos que 16,8%. (veja gráfico).

Se essa interpretação estiver correta, o Banco Central manobrou para evitar a atuação conjugada de dois fatores: os aumentos de custos do setor produtivo brasileiro, causados pelo encarecimento de insumos, peças, componentes, conjuntos e capitais importados; e o repasse dessa elevação para os preços internos. Ou seja, o Banco Central começou a se preocupar com os efeitos inflacionários da escalada do dólar.

Embora seus dirigentes repitam que o Banco Central não trabalha nem com pisos nem com tetos para o câmbio, isso também sugere que uma cotação acima de R$ 1,85 por dólar começa a preocupar.

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