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Balcão de propostas

Alckmin se ajeita no Blocão e já enfrenta embate sobre o imposto sindical

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2018 | 05h00

Paulinho da Força já deu a senha. A convivência do tucano Geraldo Alckmin com seus novos parceiros do Centrão pode ser menos tranquila do que se imaginava. Nem bem foi selada a união entre o PSDB e cinco partidos desse bloco – DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade – e Paulinho já pôs na mesa a “reivindicação” de um sistema de financiamento dos sindicatos, para substituir o imposto obrigatório extinto pela reforma trabalhista. 

Alckmin reagiu à primeira investida, mas logo em seguida recuou, prometeu a criação de uma contribuição alternativa e culpou um assessor pelo mal-entendido. Trata-se apenas do primeiro teste para o tucano, no terreno das definições do que realmente importa para a população – ou seja, o que o candidato e seu time pretendem fazer caso cheguem ao poder.

A união com o Centrão garantiu ao tucano tudo aquilo que os partidos buscam nesse momento, ou seja, valiosos minutos a mais no horário eleitoral, milhões a mais na campanha, apoios regionais e perspectiva de formação de uma base parlamentar para dar partida ao governo. Conquista expressiva, ainda mais considerando-se que, até pouquíssimo tempo atrás, muita gente dentro do PSDB continuava atrás de um nome mais atraente para substituir Alckmin. 

Tudo se desenrolou como sempre, dentro daquela máxima mais do que pragmática “política é assim mesmo”, que sobrevive apesar de todos os fatos chocantes exibidos nos últimos tempos. Só que, neste ano, com alguns exageros favorecidos por um cenário de extrema incerteza, a começar pela permanência na cadeia do líder das pesquisas de intenção de votos. O caso emblemático é o do “vice ideal” Josué Gomes da Silva, cacifado pelo PR de Valdemar Costa Neto e patrocinado por todo o Centrão, que ensaiou uma parceria com o PT, aproximou-se de Ciro Gomes (PDT) e deve acabar nos braços de Alckmin. Josué foi oferecido como parceiro a qualquer um desses candidatos – que, convenhamos, têm afinidade quase zero.

Em nome da tal “governabilidade”, os partidos fingem discutir mais do que nomes e cargos. E tentam convencer o público de que propostas também têm peso decisivo no balcão de negociações. Mas não há a menor dúvida de que “outros fatores” são os determinantes e a expectativa é de que lá na frente as diferenças se ajeitem – ainda que com o risco de a incompatibilidade de gênios se acentuar e acabar causando a separação. 

Durante essa fase de namoro entre os candidatos, ficou claro que Ciro não era bem o tipo do Centrão, tanto por suas ideias como por seu estilo explosivo. Mas é sabido que as negociações foram interrompidas menos por isso e muito mais por pressão do governo. Para quem não é iniciado nas artes da política, é difícil entender como se leva adiante – e com desenvoltura – negociação com representantes de pensamentos muitas vezes inconciliáveis. 

Ciro fala com todas as letras em derrubada do teto de gastos, revogação da reforma trabalhista de Temer, reforma da Previdência com base em capitalização, e suspensão do acordo entre Boeing e Embraer. Alckmin, ao contrário, defende manutenção do teto de gastos, redução do Imposto de Renda para empresas, avanço nas privatizações, reforma da Previdência sem capitalização. Com o PSDB, que conhece bem o DEM desde que ele era PFL, a união do Centrão pode até ser menos sujeita a crises, mas também tem lá suas vulnerabilidades, como mostra a questão do imposto sindical. 

No meio desse “casa não casa”, para o eleitorado fica cada vez mais difícil, quase impossível, identificar para onde vai cada candidato, caso ele vença as eleições. Mesmo levando-se em conta que é melhor saber antes com quem ele anda, do que depois, com o presidente já instalado no Planalto. Alckmin vai tentando se acomodar na companhia do Blocão enquanto Ciro tenta reconquistar seu lugar à esquerda. Mas, no momento, em que ainda há dúvidas sobre o nome do PT que estará na urna eleitoral, quem saiu à frente foi o Centrão, com todas suas contradições de posicionamento, mas grande consistência na estratégia de chegar e se manter no poder. 

* É jornalista.

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