Ban Ki Moon atribui crise alimentar a políticas agrícolas

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki Moon, atribuiu hoje a atual crise alimentar mundial às políticas agrícolas dos países ricos, especialmente os subsídios à agricultura e o protecionismo comercial. Em discurso pronunciado na abertura da Conferência da ONU para Desenvolvimento e Comércio, em Acra, Gana, o chefe da ONU pediu um plano internacional para evitar um caos e deixou claro que o mundo corre o risco de ver os esforços da última década para reduzir a pobreza diante da alta nos preços de alimentos."Precisamos de uma revolução verde", disse. "O primeiro dever de um governo é alimentar sua população. Mas esses governos precisam resistir ao protecionismo. Os mercados internacionais precisam ser mantidos abertos e funcionando normalmente", apelou Ban Ki Moon.Segundo ele, uma "guerra por alimentos não ajudará ninguém". "Mais comércio, e não menos, é o que nos irá tirar do buraco em que estamos", prosseguiu. Ban Ki Moon não disfarça a preocupação da ONU com as dificuldades. "O mundo enfrenta uma emergência e precisa tomar medidas urgentes para evitar conseqüências políticas e para segurança", afirmou. Ban qualificou a alta nos preços dos alimentos de "um verdadeiro tsunami". "O problema é sério", disse.Em seis meses, a ONU indica que os preços dos alimentos aumentaram em mais de 50%. "O arroz tem um novo recorde a cada dia e os protestos estão cada vez mais violentos", alertou, lembrando que o número de países barrando as exportações vem se proliferando. Para ele, não há dúvidas de que a alta nos alimentos pode simplesmente eliminar os esforços dos últimos sete anos para reduzir a pobreza do mundo. Para Ban, se a ONU e a comunidade internacional não mudarem de estratégia, milhões voltarão para a condição de miséria e as metas do milênio não serão atingidas.''Risco''"Corremos o risco de voltar à estaca zero. Estamos em uma era de aumento de incertezas econômicas e ninguém deve ser deixado para trás", disse. Ban rejeita as teorias que simplesmente acusam o etanol de ser o responsável pela alta nos preços. Segundo ele, os biocombustíveis até podem ser um dos fatores, mas não seriam nem o único e muito o menos o principal.Para ele, o custo do petróleo, dos transporte e as secas tiveram importantes impactos. Além disso, o maior consumo de alimentos, especialmente na Ásia, e a especulação financeira são elementos que têm agravado a situação. Um alerta de Ban ainda vai para os países ricos: "Chegou o momento das nações mais ricas repensarem os programas velhos e fora de moda de subsídios agrícolas." Para ele, não há dúvidas de que essas práticas contribuem para a emergência, distorcendo mercados e penalizando os mais pobres.Para a ONU, está na hora de a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) ser concluída e de os subsídios serem eliminados. "Se não conseguirmos eliminar essas relíquias agora com os preços altos, quando conseguiremos?", questionou o secretário-geral. O ponto de vista é compartilhado pelo Itamaraty, que acredita que nunca houve um momento tão propício como agora para a conclusão da Rodada, exatamente pela pressão gerada pela inflação dos alimentos.Segundo ele, os fazendeiros mais pobres estão cortando a produção em dois terços para 2009. O motivo não é o etanol, mas os custos dos fertilizantes e do petróleo. "Muitos dos pequenos fazendeiros não têm como investir no seu próprio futuro", disse. Ban ainda alerta que um terço da falta de comida no mundo é causado por obstáculos nos mercados locais e sistemas de distribuição. Ele advertiu ainda que, nos últimos três anos, a realidade é que o mundo consumiu mais alimentos que produziu.

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