Taba Benedicto/Estadão
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Laura Karpuska
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Banalização da morte é o que, de certa forma, une o Brasil

Convivência com a violência reduz nossa indignação individual e coletiva

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 04h00

Mais frequentemente do que gostaríamos de admitir, nós avaliamos políticas públicas a partir de crenças anteriores. Além disso, as evidências materiais que usamos para compreender o mundo que nos cerca muitas vezes podem ser incompletas ou viesadas e ter um valor informacional adicional baixo. 

Podemos também contaminar avaliações objetivas com nossos vieses ideológicos. Todos temos algum. Não deveria ser surpreendente para nós que exista discórdia a respeito de importantes questões sociais, políticas e econômicas, mesmo entre cidadãos bem informados e educados. 

Não faltam estudos na psicologia e na economia que mostram como indivíduos não atualizam sua percepção de mundo, mesmo depois de serem confrontados com uma evidência simples e objetiva. Um caso que serve de exemplo para os estudiosos do assunto é a eficácia da pena de morte.

Em 1979, Lord e coautores fizeram um experimento nos Estados Unidos em que eles separaram pessoas em dois grupos: os que acreditavam que a pena de morte era efetiva em prevenir criminalidade e os que não acreditavam nisso. Os grupos foram apresentados com um mesmo conjunto de evidências sobre o assunto. Ambos saíram, na média, mais convictos de suas opiniões iniciais. 

A divergência de opiniões nem sempre é um problema, especialmente quando lidamos com questões que são subjetivas e individuais por natureza. Eu gosto da cor verde e posso escolher pintar minha casa de verde. Mas, caso a minha cor favorita determine a cor da casa de meus vizinhos, passamos a ter um problema coletivo. 

Opiniões se tornam ainda mais importantes quando lidamos com decisões que são intrinsecamente coletivas – como o uso de máscaras durante uma pandemia ou o foco governamental num programa de vacinação eficaz. Estas são questões que, diferentemente do meu ingênuo exemplo sobre a cor que escolhemos pintar nossas casas, não deveriam ser subjetivas. 

A condução de políticas sanitárias e econômicas durante a pandemia da covid-19 foi subjetivizada no Brasil. É algo que fazemos recorrentemente. Achamos que “política, religião e futebol” são coisas que não se discutem. É um ditado que explicita nossa falta de intimidade com o diálogo e o debate. 

O atual governo se aproveitou da nossa tendência à subjetivização. Estimulou-se o debate sobre a pandemia como algo ideológico, e não objetivo. A falta de coordenação por parte do governo federal para defender o uso de máscaras e focar em um programa nacional de vacinação não apenas custou muitas vidas, como também dificultou a convergência da opinião coletiva sobre a importância de medidas sanitárias. 

Há evidência de que o discurso de líderes, feito de forma clara sobre a importância das normas restritivas, pode ajudar a conter o avanço da pandemia. Mas, como nós, brasileiros, podemos deparar com tanta morte e ainda assim não mudar de opinião, não questionar a atuação do governo federal? Há muita desinformação, disseminada muitas vezes pelo próprio governo, que viesa a opinião de muitos. Mas não de todos.

Enquanto escrevo esta coluna, vejo que o Brasil desponta no número de mortes diárias por habitantes. Hungria na liderança. É impossível não pensar que o que nos une – negacionistas ou não – é uma certa banalização da morte. Assim como no exemplo da ideologia política contaminando nossa percepção objetiva a respeito da pandemia, nossa convivência com a violência reduz nossa indignação individual e coletiva. 

Temos a polícia que mais mata e mais morre do mundo. A morte é nossa companheira diária. Sobrevivemos apenas com certa normalização dessa violência cotidiana. Ricos sobem muros, blindam carros e vivem envoltos nos próprios feudos. Pobres se ocupam em conseguir pagar os boletos no fim do mês. Não há tempo para outra coisa. Não olhamos a verdadeira face do Brasil frente a frente. Com glitter e purpurina, usamos nosso bom humor e alegria para mascarar nossa tristeza perante o ambiente que criamos para viver – ou sobreviver – no País.

Nós, brasileiros, banalizamos as mortes na pandemia porque estamos acostumados à violência, à perda, a ser violentados e colocados uns contra os outros. Inclusive – e sobretudo – por nossos representantes.

*DOUTORA EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE NOVA YORK E PESQUISADORA DA EESP-FGV

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