André Dusek/Estadão
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Banco Central condiciona queda dos juros a melhora da economia

Até a reunião anterior, o Copom afirmava categoricamente que o balanço de riscos indicava não haver espaço para flexibilização da política monetária

Fabrício de Castro, Adriana Fernandes e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2016 | 09h15

BRASÍLIA - O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central retirou, da ata do encontro da semana passada, o trecho que indicava "não haver espaço para flexibilização da política monetária" - ou seja, para o corte de juros. Na prática, a instituição deixou as portas abertas para uma redução da Selic (a taxa básica de juros da economia), hoje em 14,25% ao ano, embora este movimento ainda dependa de certas condições.

Os membros do comitê demonstraram "satisfação", conforme a ata, com a perspectiva de desaceleração dos preços. No entanto, citaram preocupação com o fato de as expectativas de mercado de inflação para 2017 seguirem acima da meta de 4,5% perseguida pelo Banco Central.

Para iniciar o ciclo de corte da Selic, no entanto, o Copom especificou claramente, assim como havia feito no comunicado que acompanhou o último encontro, as condições necessárias: que a alta dos preços dos alimentos na inflação seja limitada; que os produtos do IPCA sensíveis aos juros e à atividade indiquem deflação em velocidade adequada; e que ocorra redução da incerteza sobre os ajustes na economia, em especial o fiscal.

Especificamente sobre a atividade, o Copom passou a enxergar "evidências adicionais" de estabilização. O Banco Central cita, inclusive, o fato de o investimento ter registrado o primeiro aumento após nove trimestres seguidos de queda. Na quarta-feira passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) subiu 0,4% no segundo trimestre deste ano, ante o primeiro trimestre. "Há sinais de uma possível retomada gradual da atividade econômica", defende o Banco Central.

Ao mesmo tempo, a instituição lembra que a economia segue operando com nível elevado de ociosidade - o que, em tese, neste processo de retomada da economia, significaria menor pressão de alta nos preços.

No caso da inflação dos alimentos, os membros do comitê citaram que a elevação de preços persiste, mas no atacado já há algum sinal de arrefecimento. "Com a transmissão dos preços do atacado para o varejo, é possível que ocorra uma reversão desses preços ao consumidor", registrou a ata. 

O Copom lembrou ainda, como havia feito no documento anterior, que os ajustes na economia, se aprovados e implementados de forma mais rápida, vão contribuir para o controle da inflação. 

No cenário externo, o Banco Central deixou de citar a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia ("Brexit") e passou a dar ênfase á possibilidade de alta de juros nos EUA. Para o BC, manifestações recentes de membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), do Federal Reserve (Fed), sinalizam a possibilidade de alta de juros nos EUA no curto prazo, o que gera "incerteza". 

Projeções. A ata do Banco Central repetiu as expectativas para a inflação de 2017 que foram divulgadas na semana passada, após a decisão do Copom de manter a Selic em 14,25% ao ano. No cenário de referência, que utiliza taxas de câmbio e juros inalteradas em R$ 3,20 e 14,25% ao ano, a projeção de inflação está em torno de 4,5% e, no de mercado, próxima a 5,1%. Tanto para 2016 quanto para 2017, o centro da meta de inflação perseguida pelo Banco Central é de 4,5%, com 2 pontos porcentuais de tolerância para este ano e 1,5 ponto porcentual para o próximo. 

Na ata, o Copom informou que mudou sua premissa para o câmbio, de R$ 3,25 do documento anterior para R$ 3,20 no de hoje. A cotação é utilizada para a formação do cenário de referência. Com isso, o novo valor considerado para o dólar segue próximo do negociado no dia em que o colegiado decidiu manter a Selic de 14,25% ao ano mais uma vez. Na quarta-feira passada, o dólar à vista fechou cotado a R$ 3,2268. 

O realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais - via alta do dólar - era apontado pelo BC na gestão de Alexandre Tombini como um dos principais fatores de pressão para a inflação no curto prazo ao longo de todo o ano passado, ao lado do ajuste de preços administrados ou monitorados pelo governo.

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