Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

BC se reúne para decidir taxa básica de juros desfalcado e sob pressão por inflação em alta

Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne desfalcado hoje e amanhã para decidir os rumos da taxa Selic, sem dois dos seus nove membros

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2022 | 15h11

BRASÍLIA - Pressionado por estimativas de inflação que se afastam cada vez mais da meta e pelo cenário incerto com a guerra na Ucrânia, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne desfalcado hoje e amanhã para decidir os rumos da taxa Selic, a taxa básica de juros, sem dois dos seus nove membros.  

Um mês depois do último adiamento da sabatina dos novos diretores do BC, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado espera a definição de um esforço concentrado pela Casa, para avaliar indicações do governo, que pode ocorrer no fim deste mês. 

O desfalque ocorre em um momento difícil para o Copom, com a expectativa de inflação este ano disparando a 6,45% no Boletim Focus - muito acima do teto da meta (5,0%) - e as de 2023 (3,70%) e 2024 (3,15%) se afastando do alvo central de 3,25% e 3,00%, nessa ordem.

No mercado, as apostas embutidas na curva de juros futuros estão divididas entre 1,00 e 1,25 ponto porcentual para o aumento da taxa básica de juros nesta quarta. Nos últimos três encontros, o BC decidiu por elevar os juros básicos em 1,50 pp, mas, em fevereiro, indicou redução do ritmo para os "próximos passos".

Nos departamentos macroeconômicos, 44 dos 53 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast ainda aguardam alta 1,00 ponto porcentual da Selic esta semana, de 10,75% para 11,75%, o que seria o maior patamar em cinco anos. Oito casas veem ajustes maiores (6 de 1,25pp e 2 de 1,5pp).

Ex-membros do Copom avaliam que a falta de dois diretores enfraquece o debate sobre os juros básicos, especialmente porque uma das cadeiras vagas é a de Política Econômica, responsável por apresentar as recomendações sobre as diretrizes de política monetária e propor a definição da meta para a taxa Selic.

Mas, no curto prazo, a avaliação é de que o desfalque não compromete a decisão do Copom, mesmo com os impactos provocados pela guerra na Ucrânia, porque o ciclo já está no final. A preocupação maior é essa situação se estender, com prejuízos também para a agenda de inovação, que vinha sendo capitaneada pela Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, também sem diretor.

É a segunda reunião do Copom "minguada". Fabio Kanczuk, ex-diretor de Política Econômica, deixou o cargo no fim de seu mandato, em 31 de dezembro. João Manoel Pinho de Mello tinha saída marcada para a mesma data, mas estendeu sua permanência até o Copom de fevereiro à espera de seu sucessor, Renato Dias Gomes. A sabatina de Gomes e de Diogo Guillen, indicado à diretoria de Política Econômica, já foi adiada duas vezes.

Na primeira vez, em dezembro, a ligação de Guillen com o mercado financeiro foi apontada como uma das justificativas para o adiamento. Guillen era economista-chefe da Itaú Asset e é genro do banqueiro Fabio Colletti Barbosa, membro independente do conselho do Itaú Unibanco. Depois, em fevereiro, o presidente da CAE, senador Otto Alencar (PSD-BA), citou preocupações com a variante ômicron de covid-19 e com o quórum para a sessão, sem um líder do governo na Casa.

"Estou pronto para colocar para votar. Dependo do presidente (do Senado, Rodrigo Pacheco), que ficou de marcar (o esforço concentrado) para o final do mês. Fazendo o esforço, convoco logo", disse Otto, ao Estadão/Broadcast.

Para o assessor da presidência da FGV e ex-diretor do BC, Sergio Werlang, a ausência de dois diretores no Copom desta semana não deve fazer muita diferença para decisão da Selic, pois o caminho já está dado, com a perspectiva de novas altas de juros diante de um período mais longo de inflação elevada, em decorrência dos efeitos da guerra na Ucrânia.

"A pergunta é se vão colocar a inflação do ano que vem em 3,25% (centro da meta) ou não. A decisão se o aumento será de 1 ponto porcentual ou de 1,25 ponto porcentual não chega a ser tão complexa. A discussão mais importante é onde o BC quer chegar com os juros. Acho que ainda não está claro para o BC e não deve ser nessa reunião que vão decidir", avalia Werlang.

"Agora, no médio prazo, diminui a qualidade da discussão, especialmente porque nem todos os diretores do BC têm formação em macroeconomia."

Da mesma forma, o ex-presidente do BC e sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, também não acredita que a diretoria desfalcada vai prejudicar a atuação do BC na política monetária. Para ele, o efeito inflacionário da guerra na Ucrânia no Brasil deve ser combatido com mais altas de juros, que podem levar a Selic para próximo de 13%, mas não com uma dose mais forte do que 1 pp neste momento, que exige cautela do BC.

"Quanto mais tempo fica sem diretores, pior, mas não diria que seria uma catástrofe. É ruim ficar com composição incompleta, porque sobrecarrega diretores de outras áreas", diz, lembrando, que, o corpo técnico do BC continua tocando os trabalhos, inclusive da agenda de inovação. 

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