Infográficos/Estadão
Infográficos/Estadão

Banco Central decide acabar com ‘ração diária’ de dólares

Mecanismo injetou US$ 115 bilhões no mercado desde agosto de 2013 e ajudou a amenizar a valorização da moeda americana

Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2015 | 20h28

O Banco Central informou nesta terça-feira, 24, que vai reduzir drasticamente sua intervenção no mercado de câmbio. Por meio de nota à imprensa, a instituição divulgou a decisão de não renovar o programa de swaps cambiais previsto para terminar em 31 de março. Conhecido no mercado como "ração diária", o mecanismo equivalia à venda de dólares no mercado futuro, o que na prática ajudava a amenizar a valorização da moeda americana. 

Desde agosto de 2013, já foram injetados o equivalente a cerca de US$ 115 bilhões por meio desse instrumento. É com essa quantia em estoque que trabalhará a partir de agora - o banco informou que os contratos de swap cambial que vencerão a partir de 1.º de maio serão renovados integralmente. Em janeiro, o BC teve ganho de R$ 10,781 bilhões com as operações. Ao longo de todo o ano de 2014, no entanto, registrou prejuízo de US$ 17,329 bilhões, o maior da história. 

Nesta terça-feira, o dólar fechou em queda de 0,83%, a R$ 3,125, mas acumula, só em 2015, uma valorização de quase 18% em relação ao real.

De acordo com o BC, esses leilões e também os de linha (dólares com compromisso de recompra) já forneceram volume relevante de proteção cambial aos agentes econômicos. O programa teve início em 22 de agosto de 2013 e foi renovado duas vezes, sofrendo ajustes. 

No início, a chamada "ração diária" injetava US$ 2 bilhões no mercado semanalmente. Atualmente, o volume do programa é de US$ 500 milhões por semana. O BC informou também que os swaps cambiais que vencerão a partir de 1º de maio deste ano serão renovados integralmente. O BC levará em consideração a demanda pelo instrumento e as condições de mercado. 

Já os leilões de linha continuarão a ser realizados de acordo com as condições de liquidez do mercado de câmbio. "Sempre que julgar necessário o Banco Central do Brasil poderá realizar operações adicionais por meio dos instrumentos cambiais ao seu alcance", trouxe a nota do BC. 

Repercussão. O anúncio do fim do programa era esperado apenas para o final do mês, mas acabou sendo antecipado diante da fala do presidente do BC, Alexandre Tombini, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado nesta terça-feira, 24. O discurso de Tombini provocou diferentes interpretações entre analistas, com algumas apostas de encerramento e outras de manutenção do programa.

O Banco Central já vinha dando mostras de que iria reduzir sua intervenção no mercado de câmbio. No início deste mês, começou a renovar apenas parcialmente os contratos de swap cambial. Até então, todos os contratos eram renovados integralmente no vencimento. No dia 30 de janeiro, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, também já havia avisado que o governo não mais seguraria artificialmente o câmbio. 

O impacto inicial da decisão anunciada ontem pelo BC deve ser uma alta imediata do dólar, na avaliação do gerente de câmbio da Correparti Corretora, João Paulo de Gracia Corrêa. Segundo ele, embora essa decisão já se refletisse em parte nas cotações da moeda americana, ainda havia uma parcela do mercado apostando que os leilões seguiriam para além de março. “O primeiro impacto é de subida do dólar, mas depois a moeda volta à normalidade”, comentou Corrêa.

Na avaliação do economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, o BC aproveitou o anúncio de manutenção da classificação de risco do Brasil pela agência Standard & Poor’s. Segundo ele, o BC já conseguiu fornecer liquidez ao mercado e agora é a hora de fazer essas saídas ou diminuir o ritmo. “O BC foi muito oportunista, no bom sentido, ao se aproveitar deste momento, de esperar a manutenção de grau de investimento, para fazer esse movimento de saída.”

Entenda. Nos leilões de swap cambial, o BC se compromete a pagar ao mercado a variação do câmbio no período de vigência dos contratos, mais um cupom cambial (como são chamadas as taxas de juros em dólar no Brasil).

Como contrapartida, os investidores ficam obrigados a entregar ao BC a oscilação dos juros DI (a taxa utilizada nos empréstimos entre instituições financeiras e que fica próxima à taxa Selic). 

Na prática, portanto, o BC oferece ao investidor uma proteção contra a alta da moeda norte-americana, tornando desnecessária a compra do dólar à vista naquele momento. Por esse motivo que se costuma dizer que o contrato de swap cambial equivale à venda de dólares no mercado futuro. Ao ofertá-lo, o BC geralmente consegue aliviar ou até mesmo reverter a valorização da divisa.

Tudo o que sabemos sobre:
dólarbanco central

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.