Banco Central deve elevar Selic pelo menos mais uma vez

No atual ciclo de aperto da política monetária, o Banco Central optou pelo gradualismo.

Flávio Samara, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2011 | 00h00

Essa postura suscitou questionamentos de participantes do mercado, que enxergaram um BC complacente com a inflação - pois o aperto seria insuficiente para levar a inflação ao centro da meta.

A inflação permanece em nível incômodo, mas há evidências de que a alta dos preços em 12 meses já chegou ao seu pico. Uma convergência rumo ao centro da meta está em via de se iniciar, sob a influência de uma maior desaceleração na atividade. Essa parece ter sido a principal mensagem contida na ata da última reunião do Copom, divulgada ontem.

Ao elevar a taxa básica em 0,25 ponto no dia 20, o Copom divulgou um comunicado mais lacônico que o esperado. Grande parcela do mercado entendeu que o ciclo de aumento da Selic teria chegado ao fim sem garantia de um IPCA na meta para 2012. Seguiram-se pioras nas expectativas inflacionárias e os investidores passaram a embutir prêmio maior no mercado de juros.

Mas o BC não fechou a porta a novas altas. Apesar de ter notado mais incertezas no cenário internacional, observou que o maior risco para a inflação continua no mercado de trabalho apertado, que resulta em aumentos salariais acima do aumento da produtividade.

É bastante claro que o cenário internacional demanda cautela extra. Temos visto preocupações, ainda que exageradas, quanto ao risco de calote nos EUA. Seria um fato inusitado, mas cabe ressaltar que não é o cenário mais provável. Todavia, é um exemplo da turbulência das águas internacionais, nas quais o BC deve conduzir a economia brasileira.

A inflação permanece em nível muito distante do centro da meta e há riscos que sua convergência não seja tão tempestiva quanto deseja a autoridade monetária. Dessa forma, o BC deve priorizar a evolução das variáveis domésticas, sem deixar de acompanhar os desdobramentos na Europa e Estados Unidos.

No terceiro trimestre, a atividade deverá trazer sinais mais claros de acomodação, resultando numa inflação mais em linha com a meta. Mas mudanças substanciais nos indicadores deverão surgir somente após a próxima reunião do Copom, em agosto, privando a autoridade monetária de ter em mãos dados que justifiquem a interrupção do atual ciclo. Nesse contexto, o Banco Central deverá optar, pelo menos, por novo aumento de 0,25 ponto.

É ECONOMISTA DA LCA CONSULTORES

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