Banco Central e mercado de novo em sintonia

Análise: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h03

Em meio à profusão de indicadores e projeções, o que mais chama a atenção nas 153 páginas do Relatório de Inflação do quarto trimestre de 2011 é o reencontro do Banco Central com o mercado. Nem tanto pela convergência das estimativas para os números deste ano, mas pela sintonia nas projeções para 2012.

Curiosamente, coincidência ou não, a concordância entre a equipe do Ministério da Fazenda e o BC, estabelecida no segundo semestre, algo pouco comum na história econômica brasileira, desfez-se agora. Enquanto as projeções do BC e do mercado para 2012 voltaram a se aproximar, ficando em torno de 3,5%, as da Fazenda discreparam. Para o ministro Guido Mantega, no ano que vem, a economia crescerá pelo menos 4%.

Nenhum balanço da economia brasileira no ano que se está encerrando poderá deixar de destacar a queda de braço que opôs BC e analistas de mercado, a partir do início do atual ciclo de cortes da taxa básica de juros, em fins de agosto. Surpreendidos pela redução dos juros, num ambiente de alta nos índices de preços em 12 meses, economistas de bancos e consultorias chegaram a considerar que a inflação dispararia e o BC perderia a capacidade de coordenar expectativas sobre a inflação.

Aos poucos, porém, a compreensão das dimensões da crise na economia global, sobretudo na Europa, e de suas possíveis repercussões na atividade econômica doméstica, foi promovendo uma reaproximação entre as partes em desavença. A estagnação registrada no terceiro trimestre e o relativo alívio observado nas pressões inflacionárias completaram o serviço de acomodar as expectativas do mercado com os sinais emitidos pelo BC.

O Relatório da Inflação do quarto trimestre deixa transparecer rescaldos dessas escaramuças do BC com o mercado. Isso é visível, por exemplo, na insistência das menções e no detalhamento dos efeitos defasados da política monetária sobre o nível de atividades e a trajetória de inflação. Ao lembrar e relembrar o fato, o BC pareceu desejar reforçar a mensagem - que talvez considere ter sido desprezada pelos analistas - de que a política monetária, ainda que considere os eventos do passado, se pauta mesmo pelo esforço de antever e delimitar os impactos futuros de medidas anteriormente aplicadas.

Em consonância com os cenários de referência dos modelos de previsão do mercado, o BC também formula suas projeções sob a hipótese de que a situação da economia global não resultará nem em rupturas nem no encontro de solução duradoura em prazo curto. No seu documento, o BC reafirma a convicção de que a economia global, principalmente nos países desenvolvidos, se verá às voltas com baixo crescimento por tempo prolongado.

Do lado da economia doméstica, "moderação" é o termo que domina o conjunto de análises e estimativas do Relatório de Inflação. O BC prevê, para 2012, moderação no ritmo de atividade - com tendência a aceleração ao longo do ano. Também projeta moderação na expansão do crédito e na evolução da demanda. E enxerga um horizonte benigno para a inflação.

É apenas neste ponto que as projeções do mercado não coincidem com as do BC. Enquanto, no setor privado, estima-se inflação, em 2012, em torno de 5,5%, o BC ajustou sua projeção para 4,7%, o que, se ocorrer, significará, na prática, fechar o ano com a evolução do IPCA acomodando-se ao centro da meta.

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