André Dusek/Estadão
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Banco Central eleva Selic pela segunda vez consecutiva, para 3,50% ao ano

Aumento foi de 0,75 ponto percentual; decisão já era esperada pelo mercado financeiro e acontece na esteira da alta recente da inflação no País

Fabrício de Castro Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 18h37
Atualizado 06 de maio de 2021 | 10h57

BRASÍLIA - Para conter a escalada mais recente da inflação no Brasil, o Banco Central elevou nesta quarta-feira, 5, a Selic (a taxa básica de juros), de 2,75% para 3,50% ao ano. Esse foi o segundo aumento consecutivo de 0,75 ponto porcentual, em um movimento iniciado em março deste ano. Ao anunciar a decisão, o BC também sinalizou a intenção de promover novo aumento no próximo mês, para 4,25% ao ano.

A alta de juros ocorre apesar das dificuldades do Brasil para reativar a atividade econômica. Por trás da decisão do BC está o receio de que a inflação brasileira possa acelerar, em especial no próximo ano – que passou a ser a principal referência da instituição em sua decisão sobre os juros.

As projeções da autoridade monetária, atualizadas nesta quarta, indicam que o IPCA – o índice oficial de inflação – encerrará 2021 com alta de 5,1%. Esse porcentual já está bem acima da meta de inflação perseguida pelo BC para este ano, de 3,75%, embora exista uma margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual (inflação entre 2,25% e 5,25%). Já a expectativa do BC para o IPCA em 2022 é de 3,4% – valor muito próximo da meta para o ano que vem, de 3,50%. Para evitar que o índice de preços se “descole” da meta em 2022, o BC decidiu elevar os juros.

Commodities

Ao justificar a decisão, o BC lembrou em comunicado que, “com exceção do petróleo, os preços internacionais das commodities (matérias-primas) continuaram em elevação, com impacto sobre as projeções de preços de alimentos e bens industriais”.

“Além disso, a transição para patamares mais elevados de bandeira tarifária deve manter a inflação pressionada no curto prazo”, acrescentou o BC, em referência ao mecanismo que eleva o valor da conta de energia elétrica para famílias e empresas.

O BC também alertou para o chamado “risco fiscal”, ligado às dificuldades do governo em equilibrar receitas e despesas, em especial em meio ao combate aos efeitos da covid-19. Para a instituição, “novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que piorem a trajetória fiscal do País”, assim como frustrações em relação às reformas econômicas, podem gerar mais inflação no futuro.

Nova alta

O resultado foi que, além de elevar a Selic a 3,50% ao ano, o BC sinalizou novo aumento de 0,75 ponto porcentual no próximo mês, para 4,25% ao ano. A alta de juros ocorre a despeito de a autarquia reconhecer o impacto da segunda onda da covid-19 sobre o Brasil.

“Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores recentes mostram uma evolução mais positiva do que o esperado, apesar da intensidade da segunda onda da pandemia estar maior do que o antecipado”, registrou o BC hoje. “A incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia ainda permanece acima da usual.”

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Para o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, a comunicação do BC reforça a perspectiva de pelo menos mais dois aumentos seguidos de 0,75 ponto porcentual da Selic, com a taxa atingindo o patamar de 5,00% ao ano.

“Em linhas gerais, o BC mostrou-se austero com o avanço da inflação, e a perspectiva é de que isso continue assim. Mas ele manteve a sinalização de normalização ‘parcial’ do juro”, afirmou Sanchez, a respeito da sinalização do BC de que ainda manterá algum estímulo à economia, em meio à crise provocada pela pandemia. Na prática, a leitura é de que a Selic subirá, mas ainda permanecerá em níveis mais baixos que no passado, em função da fraqueza da economia.

Copom manteve agressividade

Ao “contratar” mais um aumento de 0,75 ponto porcentual em sua próxima reunião, marcada para os dias 15 e 16 de junho, o Copom indica que vai seguir agressivo nos movimentos da Selic, mais do que dobrando, em pouco tempo, a taxa que entrou o ano em 2%. A avaliação é do economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, que, por outro lado, observa que o comunicado do Copom também foi pontuado por inesperadas mensagens “dovish” – ou seja, que sugerem alguma suavização no ritmo de aumento dos juros.

“O comunicado traz aspectos dovish (menos agresivo) e hawkish (mais agressivo). Nossa avaliação, era de que só haveria a parte hawkish”, comenta Camargo ao tratar do teor do texto que anunciou o aumento da Selic para 3,5% ao ano. Na avaliação dele, ao apontar medidas de inflação subjacente no “topo” do intervalo de meta inflacionária, e não “acima” do intervalo como no comunicado da reunião anterior, o Copom transmite a visão de que a inflação subjacente teve certa redução de um encontro para o outro.

O BC resolveu abrir mão de certo grau de liberdade para atuar no próximo Copom e optou por indicar no comunicado da reunião que poderá promover outra alta de juro de 0,75 ponto porcentual. A avaliação é da economista sênior da LCA Consultores, Thais Zara.

“Imaginávamos que ele fosse deixar algum grau de liberdade para o próximo Copom, mas preferiu já indicar que poderá elevar a Selic em mais 0,75 ponto porcentual na próxima reunião”, observou Thais. /EDUARDLO LAGUNA e FRANCISCO CARLOS DE ASSI

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