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Banco central global

O novo adiamento do início do processo de alta dos juros nos Estados Unidos levanta questões intrigantes

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2015 | 21h00

O novo adiamento do início do processo de alta dos juros nos Estados Unidos levanta questões intrigantes.

A primeira é a de que os caminhos não convencionais de política monetária são como o mundo do vício: é fácil de nele entrar, mas muito difícil para dele sair.

A segunda é que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não consegue mais ater sua atuação às fronteiras nacionais; começa a atuar como banco central global.

A injeção de US$ 3,5 trilhões nos mercados por meio da compra de títulos públicos e privados, na operação que foi chamada de afrouxamento quantitativo (QE - quantitative easing), foi a resposta do Fed para a supercrise que começou em 2008 (veja o gráfico) e não tem data para acabar. Foi a operação de “despejo de dinheiro por helicóptero”, como disse em 2008 o então presidente do Fed, Ben Bernanke, que repetia expressão conhecida do economista Milton Friedman, fundador da Escola de Chicago.

O objetivo dessa operação foi reativar o crédito que havia sido travado pela crise e, a partir daí, estimular o consumo, a atividade econômica e o emprego. Dá para dizer que funcionou, porque a economia dos Estados Unidos está em recuperação. Não fosse essa atuação, muitos bancos e muitas empresas teriam quebrado. E sabe-se lá qual não teria sido o morticínio de empregos não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

No entanto, há mais de um ano o Fed vem adiando o início do jogo em sentido contrário, o do enxugamento dessa aleluia de dólares. Uma das razões para esse adiamento foi o sumiço da inflação, que, em princípio, se esperava a partir de tanta emissão de moeda; ao contrário, o maior risco nas economias maduras é de deflação. Outra razão para o adiamento é a ainda fraca recuperação da economia americana, vulnerável a um movimento decidido de restrição monetária.

E um terceiro fator, talvez o mais importante, que levou o Fed a mais esse adiamento foi a vertigem que tomou conta da economia da China e dos emergentes. Pela primeira vez, a presidente do Fed, Janet Yellen, evocou problemas externos, e não o comportamento da economia dos Estados Unidos, para a definição de sua política monetária.

A edição dessa quinta-feira da revista Barron’s observa que o Fed começa a desempenhar funções de banco central global. É como assumir na política monetária papel equivalente ao de guardião da segurança do Ocidente, desempenhado desde a década de 20 pelos Estados Unidos.

É cedo para dizer que essa função de fato do Fed seja um movimento irreversível e, mais ainda, para apontar suas conseqüências.

O que se pode dizer é que, se o enfraquecimento da economia da China e dos emergentes for a principal explicação para o adiamento da reversão da política do Fed, segue-se que tão cedo não se iniciará a alta dos juros nos Estados Unidos, porque as atuais adversidades desses países têm tudo para se aprofundar. Podem ter apenas começado.

CONFIRA:

Acompanhe a evolução da arrecadação federal nos últimos sete meses.

Piorou, como esperado

A arrecadação em agosto foi o fiasco esperado, o pior resultado para o mês em cinco anos. Reflete três fatores que se alimentam reciprocamente. O primeiro é a redução do consumo, que tem a ver com a quebra de renda e o aumento do desemprego. O segundo, a expectativa de piora da crise que leva o consumidor a ser mais conservador. E o terceiro é a atual política de muitas empresas que preferem fazer caixa com o dinheiro que teria de ser recolhido aos cofres públicos.

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