Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Banco Central mantém taxa básica de juros em 6,5% ao ano

Manutenção da taxa Selic é a terceira consecutiva; decisão foi unânime e era largamente esperada por analistas do mercado

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2018 | 18h00

Os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiram, por unanimidade, manter a Selic (os juros básicos da economia) em 6,50% ao ano. Com isso, a taxa permaneceu no nível mais baixo da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996. Foi a quarta reunião seguida em que a taxa foi fixada neste patamar.

A decisão desta quarta-feira, 1, era largamente esperada pelos economistas do mercado financeiro. De um total de 62 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam pela manutenção da Selic.

Ao justificar a decisão, o BC reafirmou por meio de comunicado que a evolução do cenário básico e do balanço de riscos prescreve manutenção da taxa Selic no nível atual.

"O Comitê entende que essa decisão reflete seu cenário básico e balanço de riscos para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui o ano-calendário de 2019", completou o colegiado.

No documento, o BC também atualizou suas projeções para a inflação. No cenário de mercado - que utiliza expectativas para câmbio e juros do mercado financeiro, compiladas no relatório Focus -, o BC manteve sua projeção para o IPCA em 4,2% para 2018. No caso de 2019, a expectativa passou de 3,7% para 3,8%.

No cenário de referência, em que o BC utilizou uma Selic fixa a 6,50% e um dólar a R$ 3,75 nos cálculos, a projeção para o IPCA de 2018 permaneceu em 4,2%. No caso de 2019, o índice projetado continuou em 4,1%. As projeções anteriores constaram no Relatório Trimestral de Inflção (RTI), divulgado no fim de junho.

O centro da meta de inflação perseguida pelo BC este ano é de 4,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual (índice de 3,0% a 6,0%). Para 2019, a meta é de 4,25%, com margem de 1,5 ponto (de 2,75% a 5,75%).

Efeitos da greve dos caminhoneiros

O Copom considerou que os efeitos da greve dos caminhoneiros - ocorrida entre o fim de maio e o começo de junho - sobre a inflação estão se mostrando temporários. 

"Indicadores recentes da atividade econômica refletem os efeitos da paralisação no setor de transporte de cargas, mas há evidências de recuperação subsequente", afirmou o órgão, por meio de comunicado. "O Comitê considera que os efeitos dos choques recentes sobre a inflação estão se revelando temporários, mas é importante acompanhar ao longo do tempo o cenário básico e seus riscos e avaliar o possível impacto mais perene de choques sobre a inflação", acrescentou o documento.

Sob o impacto da greve, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acelerou e chegou a 1,26% em junho. Para julho, porém, a expectativa dos analistas de mercado consultados pelo BC no Relatório Focus é de uma inflação de apenas 0,30%.

O Copom reforçou nesta quarta-feira, 31, que sua atuação deve se pautar na evolução das projeções e expectativas de inflação e da atividade econômica. Mais uma vez, o colegiado explicou que os choques de preços relativos devem ser combatidos apenas em seus efeitos secundários, por meio dos quais podem alterar os balanços de riscos para a inflação.

"Esses efeitos podem ser mitigados pelo grau de ociosidade na economia e pelas expectativas de inflação ancoradas nas metas. Portanto, não há relação mecânica entre choques recentes e a política monetária", acrescentou o BC.

O Copom repetiu ainda que os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação.

Cenário externo desafiador, mas 'mais acomodado'

Segundo o comunicado do Copom, o cenário externo continua desafiador, apesar de ter apresentado certa acomodação no período recente. 

"Os principais riscos estão associados à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas e a incertezas referentes ao comércio global. O apetite ao risco em relação a economias emergentes manteve-se relativamente estável, em nível aquém do observado no início do ano", afirmou o Copom, por meio de comunicado.

Apesar de considerar evidência de recuperação da atividade econômica após a greve dos caminhoneiros, o BC relatou que a continuidade do processo de melhora da economia passou a ter um ritmo mais gradual do que o esperado antes da paralisação do setor transporte de cargas entre o fim de maio e o começo de junho.

No documento, o Copom mais de uma vez afirmou que a inflação de junho - de 1,26% - refletiu os efeitos da greve, mas ressaltou que esses impactos devem ser temporários. "As medidas de inflação subjacente ainda seguem em níveis baixos, inclusive os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária", concluiu o BC.

Necessidade de reformas estruturais

Banco Central voltou a defender a agenda de reformas estruturais e alertou, sem citar diretamente o debate eleitoral, que a percepção sobre a continuidade dos ajustes afeta as expectativas sobre a economia brasileira. 

"O Comitê enfatiza que a continuidade do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia", afirmou o Copom, por meio de comunicado. O Comitê ressalta ainda que a percepção de continuidade da agenda de reformas afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes", completou o BC.

Para o colegiado, o risco de frustração das expectativas sobre a continuidade de reformas - o que pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória de inflação - permanece em níveis elevados, assim como o risco de deterioração do cenário externo para as economias emergentes.

Comércio e indústria concordam com decisão

Em nota, a Fiesp, que representa a indústria paulista, ressalta a necessidade de o Brasil prosseguir com reformas para que os juros convirjam para níveis internacionais. A Firjan, das indústrias do Estado do Rio, avalia que a atividade segue recuperação de forma lenta e a inflação continua abaixo da meta do Banco Central, portanto, não havia motivos para subir os juros.

Para o superintendente institucional da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo, há três razões para a manutenção da taxa: a inflação está no centro da meta, o nível da atividade econômica está muito fraco e aceleração da inflação no último mês foi "acidental e pontual, provocada pela paralisação dos caminhoneiros". "Qualquer aumento de juros nesse momento iria inviabilizar uma melhora da atividade", afirma, em comunicado.

O presidente em exercício da Fiesp e do Ciesp, José Ricardo Roriz, destaca que, a despeito de a taxa Selic ter caído para níveis historicamente baixos, essa queda ainda não foi "plenamente percebida" nos custos dos empréstimos. "São cruciais, portanto, medidas que reduzam o elevado custo do crédito", afirma, em nota comentando a decisão do Copom. Ele ressalta que o avanço das reformas que "equacionem o grave desequilíbrio fiscal" é crucial para que o juro básico recue "de forma consistente" para níveis condizentes com os padrões internacionais.

No comunicado da Firjan, a instituição afirma que a decisão do BC foi "acertada". "É importante destacar que a mudança no direcionamento na política econômica, com a adoção de medidas que aumentaram os custos sobre o setor produtivo, freou a recuperação da atividade e reduziu o nível de confiança dos empresários", afirma o texto, que pede a retomada das reformas estruturais.

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