'Banco Central mistura crescimento e inflação', diz economista

Para Castelar, BC deveria estar preocupado em reconstruir a credibilidade de olho nos possíveis ajustes de 2015

Entrevista com

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2014 | 02h04

O economista Armando Castelar acredita que o Banco Central deveria ter elevado a taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual. Ele avalia que a instituição está misturando inflação e crescimento, o que não é bom neste momento. Para ele, o BC deveria se preocupar em reconstruir a credibilidade. A seguir, trechos da entrevista.

Como avalia a alta da Selic?

O melhor seria ter elevado a taxa Selic em 0,5 ponto porcentual. Aumentar a Selic em 0,25 ponto porcentual não era a solução ideal, porque o BC dá um sinal de que está com uma visão dupla, que mistura crescimento e inflação. E não é um bom momento disso: o ideal é reconstruir a credibilidade.

Por quê?

Todo mundo sabe que 2015 será um ano difícil em termos de inflação porque os preços administrados vão subir bastante. Provavelmente, gasolina, diesel, energia elétrica, passagem de ônibus terão reajuste em 2015. A hora de construir credibilidade para lidar com isso de uma maneira mais eficiente e sacrificar menos o crescimento é agora.

Mas não há uma sensação de melhora de humor do mercado com o Brasil após o anúncio do contingenciamento?

Há uma certa conclusão de que nem tudo que foi prometido no ajuste fiscal vai acontecer. Existiu um impacto positivo maior até do que eu imaginaria, mas é muito cedo para achar que houve uma construção suficiente de credibilidade fiscal para poder abrir mão de credibilidade monetária.

Qual deveria ser o nível da Selic se o BC estivesse disposto a atingir o centro da meta de inflação, de 4,5%?

Provavelmente algo como 13,5% ou 14%. Eu acho que não existe a expectativa de que o Banco Central vai buscar os 4,5%. Existe um risco não trivial de que a inflação supere o teto da meta neste ano, e o que se está trabalhando hoje é com uma alta na Selic que evite uma deterioração na inflação em relação ao ano passado. Se o Banco Central estivesse mirando a inflação, teria de continuar com a alta dos juros por muito tempo.

Qual é o impacto de o BC não retomar prontamente a reconstrução dessa confiança?

Eu acho que pode ter um sinal ruim. Há alguns cenários possíveis. O mais provável, é que o Banco Central volte a elevar os juros depois da eleição. Essa sinalização é ruim porque significa que o Banco Central esteve a reboque do ciclo eleitoral. Pode ter um cenário mais complicado que obrigue o Banco Central a elevar os juros antes das eleições por causa de uma turbulência no mercado de câmbio. Mas, de um jeito ou de outro, a tendência é que os juros subam mais, seja depois das eleições ou no meio do ano.

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