Banco Central vê cenário positivo para a inflação

Ata da última reunião do Copom mostra que o Banco Central acredita que a inflação fechará no centro da meta de 4,5% em 2011

Fábio Graner, Fernando Nakagawa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) mostrou que, apesar das incertezas que existem no cenário macroeconômico, o Banco Central está confiante de que a inflação fechará 2011 no centro da meta de 4,5%.

O documento destaca que a alta recente dos preços já era esperada e decorre, sobretudo, dos alimentos. Dessa forma, o Copom mostra-se confortável com o juro básico em 10,75% ao ano, consolidando a aposta do mercado de que a taxa Selic deve encerrar 2010 no atual nível.

"O fato de que a contribuição de alimentos para a inflação plena tem sido elevada, comparativamente ao padrão histórico, sugere estar em curso a materialização de riscos de curto prazo que haviam sido identificados e levados em conta no balanço de riscos avaliado na última reunião do Copom", afirmou o BC. "Neste momento, prevalece o entendimento de que a convergência da inflação para o valor central da meta tende a se concretizar."

Apesar de enxergar a inflação caminhando em direção à meta ao longo do próximo ano, o Copom observou que o movimento está condicionado a um aperto fiscal adicional de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem, além de uma desaceleração do ritmo de expansão do crédito.

Fator externo. Para o BC, um dos fatores que têm contribuído para uma perspectiva favorável para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, o índice oficial de inflação) é a situação internacional. A instituição avalia que o fraco desempenho da economia mundial tem reduzido os preços de produtos importados, situação potencializada pelo real valorizado. "A influência do cenário internacional sobre o comportamento da inflação doméstica revela certo viés desinflacionário", diz a autoridade monetária.

No documento anterior, não havia a expressão "certo" acompanhando o chamado "viés desinflacionário", o que revela maior dúvida do BC sobre os rumos da economia internacional e o tamanho do seu impacto nos preços domésticos. Eventos como a recente elevação da taxa de juros na China e informações de que a emissão de dólares nos Estados Unidos não deve ser tão forte quanto inicialmente se pensava são fatores de incerteza.

De qualquer forma, o BC acredita que o Brasil está importando menor inflação, o que tem ajudado no controle dos preços. Esse impacto é percebido na alta dos preços de bens comercializáveis - produtos que podem ser importados - que em 12 meses está abaixo de 4%, enquanto os não comercializáveis - como os serviços, que não têm concorrência externa - têm rodado acima de 5%.

No documento, o Comitê reconhece que tem ocorrido uma divisão entre os economistas quanto à avaliação das perspectivas para a inflação. "Evidências a esse respeito se manifestam, por exemplo, no caráter bimodal da visão dos analistas consultados pelo Banco Central", cita a ata.

O texto explica que "uma parte (dos analistas) percebe um cenário inflacionário benigno, no qual a taxa Selic permaneceria estável no horizonte relevante". Para esse grupo, a inflação ficará bem comportada e não vai ser preciso subir o juro nos próximos meses.

Mas há outro grupo "que mostra ceticismo e advoga elevação da taxa básica". Para essa ala, a inflação deve se acelerar no fim de 2010 e 2011. De acordo com a pesquisa Focus realizada pelo BC com analistas, essa é a leitura predominante, já que o mercado aposta que a taxa Selic deverá subir 1 ponto porcentual no decorrer do próximo ano, chegando a 11,75%. O aumento, preveem economistas, pode começar já no primeiro trimestre do próximo governo.

OS PRINCIPAIS PONTOS DA ATA

Inflação

Neste momento prevalece o entendimento de que a convergência da inflação para o valor central da meta (4,5%) tende a se concretizar .

Variáveis

Cabe destacar que essa hipótese de convergência está condicionada à materialização das trajetórias com as quais o Comitê trabalha para variáveis fiscais e creditícias (leia-se, aumento do superávit primário e desaceleração do crédito) .

Fator externo

A influência do cenário internacional sobre o comportamento da inflação doméstica revela certo viés desinflacionário .

Riscos de curto prazo

O fato de que a contribuição de alimentos para a inflação plena tem sido elevada sugere estar em curso a materialização de riscos de curto prazo identificados e levados em conta na última reunião do Copom.

Incertezas

Comitê reconhece um ambiente econômico em que prevalece nível de incerteza acima do usual, no qual os riscos restantes para a consolidação de um cenário inflacionário benigno se circunscrevem ao âmbito interno. Por exemplo, os derivados da expansão da demanda doméstica, em contexto de estreita margem de ociosidade dos fatores de produção.

Capacidade instalada

A esse respeito, é importante destacar que no passado recente tem sido observada certa estabilidade, em nível elevado, da taxa de ocupação da capacidade instalada, bem como certa moderação no dinamismo do mercado de trabalho ex-administração pública. Nesse contexto, é plausível afirmar que os fatores de sustentação desses riscos domésticos mostram desaceleração.

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