Banco de desenvolvimento dos Brics não sai do papel

A ideia de criar um banco para financiar projetos de infraestrutura começou a ser discutida no ano passado

IURI DANTAS, ENVIADO ESPECIAL, DURBAN / ÁFRICA DO SUL, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2013 | 02h04

Cinco anos após sua criação, o grupo formado pelas mais importantes economias emergentes do planeta não obteve consenso sobre a criação de seu banco de desenvolvimento, por isso a primeira ação prática do Brics continuará apenas no papel. Em sua quinta reunião de cúpula amanhã, os presidentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul também não devem fechar acordo sobre um fundo com dinheiro das reservas internacionais para casos de emergência.

A ideia de um banco dos cinco países para financiar projetos de desenvolvimento e infraestrutura foi lançada na cúpula do Brics do ano passado. Desde então, os ministros da Fazenda do grupo vêm estudando como montar essa estrutura. Na reta final, porém, as negociações empacaram por divergências sobre a governança da instituição. Ironicamente, estes mesmos países pedem maior influência nas decisões do FMI e do Banco Mundial.

Por falta de acordo, a solução será manter o assunto em pauta, anunciando formalmente a decisão de construir o banco de desenvolvimento pouco a pouco, com aporte inicial de US$ 10 bilhões para cada integrante do grupo. A instituição deve começar a operar somente em 2016, no melhor cenário traçado por fontes do governo brasileiro.

Pesou também a resistência da Rússia, que teria menor interesse em obter empréstimos do futuro banco, por ter melhor infraestrutura que Brasil, Índia e África do Sul. Também não há consenso sobre as modalidades de financiamento da futura instituição.

Ajuste. O Brics foi criado como grupo político, para unificar o discurso destes emergentes em meio à crise financeira mundial. Não há intenção declarada de uma integração maior dos países e a assinatura de um acordo de livre comércio, por exemplo, está fora de questão. No entanto, é possível apostar em aumento das trocas comerciais, devido aos ajustes estruturais que cada economia precisa fazer.

Ao chegar a Durban, no início da noite de ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, resumiu a expectativa brasileira sobre esse potencial de trocas ressaltando o baixo crescimento dos países desenvolvidos. "Vamos dar continuidade no estreitamento dos nossos laços econômicos porque hoje os países avançados não estão crescendo, estão crescendo pouco", disse. "Então os Brics dependem mais de si mesmos. Somos os países que vamos continuar crescendo, temos um dinamismo maior, temos de aproveitar melhor os nossos mercados e o nosso comércio."

Brasil e Rússia, que reclamam nos bastidores por exportarem produtos básicos como petróleo, gás, minério de ferro e cereais, podem ganhar com a intenção chinesa de estimular o consumo interno e com a necessidade da Índia de abrir sua economia. De olho neste potencial, será criado o Conselho Empresarial do Brics, com cinco representantes de cada país.

O conselho terá encontros semestrais. O objetivo é listar as dificuldades que travam o comércio intra-Brics, as possibilidades de negócio e formas de estimular o investimento entre os países. Na esteira do boom de commodities pré-crise, a corrente de comércio entre os cinco emergentes do grupo cresceu de US$ 27 bilhões, em 2002, para US$ 282 bilhões no ano passado.

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