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''Banco insolvente não deve ser salvo pelo contribuinte''

James Galbraith: economista; economista americano questiona o socorro a bancos e a seus acionistas, mas defende ajuda [br]ao correntista comum

Entrevista com

Matthias Kaufmann, MANAGER MAGAZINE, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2009 | 00h00

Enquanto o mundo discute planos de resgate de bancos com problemas, alguns economistas acreditam que algumas dessas instituições não deveriam de forma alguma ser salvas. Para o economista americano James Galbraith, faria mais sentido deixar que as instituições quebrassem. A seguir, trechos da entrevista.O sr. sugere que os bancos sobrecarregados de ativos ruins deveriam simplesmente ser declarados insolventes, em vez de salvos com dinheiro do contribuinte. Por quê? É preciso haver uma avaliação correta do grau das perdas sofridas por um banco que está funcionalmente insolvente. Mas, enquanto a velha administração estiver no comando, não há incentivo para ela cooperar na avaliação necessária. Esse é o primeiro problema. O segundo é que, quando um banco está insolvente, desaparecem os incentivos para uma prática bancária normal. Os administradores se tornam perversos. A administração tem boas razões para arriscar em excesso e realizar perdas de capital. Isso porque têm a impressão de que os reguladores poderiam fechar o banco num prazo curto. Ademais, se a situação do banco é realmente sem esperança ou se a administração é realmente corrupta, então o incentivo é para saquear a instituição, tirar o máximo de dinheiro dela - por exemplo, na forma de bônus e dividendos - antes de a verdadeira condição ser descoberta.Isso é algo que estamos testemunhando neste momento? Esses incentivos existem. Numa situação em que um banco sofreu prejuízos suficientes para arruinar seu capital, é preciso haver uma supervisão regulatória operante. Isso não significa que se deva necessariamente fechar o banco. A maneira como isso funciona, em geral, nos Estados Unidos é que um banco é fechado na sexta-feira e reabre na segunda-feira com outro nome, sob novo comando e com uma equipe de inspetores tentando separar os empréstimos bons dos ruins. Com isso, se isolam as coisas imprestáveis, força-se a baixa de capital e das dívidas subordinadas das pessoas que investem em capital de risco - de modo que elas assumam as perdas como deveriam. E, depois, divide-se o banco em pedaços que tenham melhor perspectiva de ganhar viabilidade o quanto antes. A mudança de administração é, então, o passo mais importante?Uma mudança de administração é fundamental porque os que a ocupam são responsáveis, culpados ou não, e porque é preciso gente nova alinhada com a finalidade pública da reorganização. É o mesmo princípio na Marinha: se o navio encalha, o capitão é removido, tenha ou não causado o acidente. Ninguém acharia uma boa ideia ter a investigação chefiada por quem deve ser investigado.O que sugere é difícil para dois grupos de pessoas: a administração existente e os acionistas do banco.Por que se preocupar? Os acionistas já perderam a maior parte de seu capital. No caso do Citigroup, ele era negociado em US$ 55 por ação há um ano e agora suas ações custam US$ 3,58. Houve perda de aproximadamente 95%. E os restantes 5% só existem por causa da expectativa de que o governo os salvará. Assim, até essa mínima capitalização de mercado é apenas nominal. Todos sabem que o banco está de fato insolvente. Outra questão é: quem são os acionistas? Quem detém ações a esse preço? Boa parte poderiam ser pessoas que compraram suas ações do Citi por US$ 5 ou US$ 4. Claramente, estão especulando com o salvamento. Não há nada de errado nisso, mas elas não têm direito a um respaldo público.E a administração? Os administradores estão em seus cargos por causa dos acionistas que lhes deram grandes poderes e, claro, gostam de vê-los ter bom desempenho. Quando conseguem, ficam muito bem de vida. A maioria está no cargo há um par de anos, e ganhou muito nos últimos anos, em alguns casos, bônus de US$ 20 milhões. De novo: quando o navio encalha, é preciso haver consequências. A administração não merece simpatia. Eles não ficarão pobres. Eles têm o suficiente para enviar os filhos à universidade. Alguns podem ter de vender algumas casas e barcos. Isso não é uma coisa triste - isso se chama sistema capitalista. Bem, costumava ser chamado de sistema capitalista. Será que ainda temos um sistema capitalista em algum lugar? Na China, talvez? (risos) No seu cenário, os depósitos devem ser garantidos pelo Estado.Sim, isso é imprescindível. A prática padrão nesse caso é estabelecer um fundo importante de seguro contra insolvência. Isso segue o princípio de que o depositante comum não é responsável pelos problemas do banco. É simples assim: se os depositantes sentirem que há algo errado na maneira como o banco é administrado, largam o banco, e isso causa um problema sistêmico muito rapidamente. E é também por essa razão que se tenta ao máximo manter esse negócio comum operando após declarar um banco insolvente.De volta às consequências que sugeriu: declarar os bancos insolventes e salvar apenas os empréstimos. E o efeito dominó que poderia resultar, danificando sistemicamente bancos importantes? O efeito dominó ocorrerá de qualquer maneira. A questão com a qual os políticos precisam lidar é: querem ter o efeito agora ou querem ter de lidar com esses problemas por mais uma década? Eles devem ser prevenidos: Quanto mais tempo durar, maiores os prejuízos. Essa é a lição da experiência japonesa. Há momentos em que o Estado precisa afirmar sua autonomia. A realidade da crise financeira é que ela foi causada por uma cultura de cumplicidade. É isso que torna tão difícil as pessoas entendê-la, em especial os envolvidas, que a negavam a si mesmos e estavam parcialmente cientes da extensão do dano. Provavelmente muitos achavam que se safariam, e agora percebem que criaram uma tombo enorme. Quem é:James Galbraith Filho do renomado economista John Kenneth Galbraith, graduou-se em Harvard em 1974 e é PhD por Yale em 1981. Ambos em Economia De 1981 a 1982, foi funcionário do Congresso americano. Atualmente, é professor do Lyndon B. Johnson School of Public Affairs

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