Banco Mundial faz alerta para a América Latina

Para o banco, países da região que enfrentam problemas precisam da receita de 'sangue, suor e lágrimas' do ajuste fiscal

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2014 | 02h04

Os países da América Latina devem resistir à tentação do caminho "fácil" da expansão dos gastos e endividamento para enfrentar um cenário de desaceleração econômica e adotar a receita do "sangue, suor e lágrimas" do ajuste fiscal, com o objetivo de abrir espaço para redução da taxa de juros, disse ontem o economista-chefe do Banco Mundial para a região, Augusto de la Torre.

Na avaliação da instituição, a capacidade de muitos países latino-americanos de implantar políticas anticíclicas para reverter a baixa expansão do PIB foi limitada pelo aumento do endividamento público e a pressão inflacionária. A dívida restringe a possibilidade de expansão do gasto público, enquanto a alta de preços impede a redução da taxa de juros.

Em um cenário de alta liquidez internacional e busca de retornos elevados, há o risco de os países aumentarem ainda mais suas dívidas para financiar déficits fiscal e externo crescentes, na tentativa de reverter a desaceleração econômica, alertou o relatório do Banco Mundial. Essa opção "fácil" pode gerar aumento do consumo no curto prazo, mas coloca em risco a trajetória de longo prazo de expansão do PIB, disse a entidade.

O Brasil está entre os países que viram uma redução da habilidade de reagir ao menor crescimento com políticas anticíclicas. A situação fiscal do País se deteriorou e a inflação está no teto da banda de flutuação da inflação definida pelo Banco Central. Mas alguns países vivem situação mais grave em termos de capacidade de endividamento - o caso mais extremo é a Argentina.

Segundo Torre, os ventos externos que impulsionaram a expansão da região na última década deixaram de soprar e os países devem agora realizar reformas que aumentem a produtividade e criem motores domésticos para o crescimento.

No caso do Brasil, ele defendeu políticas que estimulem o investimento e acabem com os gargalos que restringem a atividade econômica. "Muita da história de crescimento do Brasil esteve ligada ao consumo. Isso não foi ruim, porque o consumo foi parte da história do crescimento da classe média e da redução da pobreza. Mas, no longo prazo, a economia não cresce com base no consumo, mas sim com base no investimento e na produtividade", declarou.

Diferenças. O relatório do Banco Mundial apresenta um cenário heterogêneo da economia da região, com um grupo significativo de países crescendo a taxas elevadas. O Brasil ficou ao lado de Venezuela e Argentina no time dos que registram os piores desempenhos e puxam para baixo os índices de expansão latino-americanos.

Dos 31 países analisados pela instituição, 24 devem ter em 2014 crescimento acima da média de 1,2% da região. Nesse grupo estão Panamá, Bolívia, Colômbia, Paraguai, República Dominicana, Nicarágua, Guiana, Equador e Suriname, com expansão superior a 4%. Venezuela, Argentina e Barbados devem registrar contração do PIB. O Brasil aparece em seguida entre os países de pior performance na região, com alta prevista de 0,5% - o Fundo Monetário Internacional prevê crescimento ainda menor, de 0,3%.

Na avaliação de Torres, o baixo ritmo de expansão coloca em risco a manutenção das conquistas sociais da última década, quando o crescimento foi estimulado pelo alto preço das commodities e baixas taxas de juros em todo o mundo. De 2002 a 2012, a região conseguiu reduzir a pobreza extrema pela metade e duplicar o tamanho de sua classe média.

Segundo Torre, a desaceleração do crescimento criou conflitos entre objetivos de curto e de longo prazos e acentuou o desafio de conciliar expansão e redução da desigualdade social.

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