Banco Pine negocia venda para o Original, do JBS

Provisões para devedores duvidosos do Pine devem ser decisivas na definição do preço do negócio, de acordo com fontes

CYNTHIA DECLOEDT , ALINE BRONZATI , O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2014 | 02h05

Atualizado às 16h de 12/12/2014

O banco Pine está negociando a venda de seu controle e, de acordo com fontes ouvidas pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, um acordo já estaria sendo costurado com o Original, do grupo J&F. O valor do negócio ainda não foi fechado. Neste momento, as duas instituições avaliam o impacto das provisões para devedores duvidosos, as chamadas PDDs, no preço a ser pago pelo ativo. Ao final de setembro, o saldo estava em R$ 132 milhões.

Pelo preço de fechamento ontem de suas ações, de R$ 6, o valor do mercado do banco está em cerca de R$ 700 milhões. Há pouco mais de um ano, estava em cerca de R$ 1 bilhão. Além disso, o montante representa um desconto de quase 50% em relação ao valor de seu capital social, segundo fontes. No entanto, por se tratar de venda de controle, de acordo com um profissional, é natural que seja somado um prêmio ao valor de mercado da instituição.

As provisões são fator decisivo para Pine e Original chegarem a um consenso sobre o valor do negócio, conforme analistas. O saldo em setembro era 30,5% inferior ao do mesmo período de 2013, quando estava em R$ 190 milhões. No terceiro trimestre, o banco vendeu uma carteira de crédito duvidoso que gerou resultado positivo nos gastos com calotes. Nela, constavam créditos que ainda não estavam classificados como inadimplentes e que o banco optou por rebaixar antecipadamente para a classificação H, a mais baixa na escala de risco do Banco Central. A venda de tais créditos gerou uma reversão de R$ 35,9 milhões nas provisões, enquanto o rebaixamento de carteiras elevou em R$ 13,8 milhões as PDDs.

Se não tivesse conseguido vender o crédito podre, o índice de inadimplência do Pine, considerando os atrasos acima de 90 dias, em 0,3%, estaria em 1%, de acordo com analistas do Grupo Bursátil Mexicano (GBM). O diretor de Relações com Investidores do banco, Norberto Zaiet Junior, disse ontem, durante reunião com analistas e investidores, que a estratégia não é novidade e que o banco vende carteiras com este perfil desde 2011. Considerou, inclusive, a hipótese de o banco seguir vendendo carteiras inadimplentes nos próximos trimestres.

Para um analista, dificilmente o Pine será vendido com tal deságio "a não ser que haja algum evento à frente de provisionamento que ainda não está evidente no balanço". Antes do Original, segundo a fonte, o Bradesco chegou a olhar o ativo, mas declinou. Outros bancos também avaliaram os números do banco, movimento natural quando há uma oferta na rua.

O banco Original tem fôlego para investir em aquisições. Seu índice de Basileia, que mede quanto pode emprestar sem comprometer o seu capital está em 26,5%, muito acima dos 11% exigidos pelo Banco Central. Com patrimônio líquido de R$ 2 bilhões, conforme dados enviados ao regulador até junho, sua carteira de crédito totalizou R$ 1,6 bilhão equivalente a uma alavancagem de 0,8 vez. Os bancos trabalham, diz o analista de bancos da Austin Ratings, Luiz Miguel Santacreu com um indicador de 3 vezes o seu patrimônio. O Pine tem alavancagem de 5 vezes sobre o patrimônio, sem considerar a carteira de fianças bancárias.

"O Original possui alavancagem e rentabilidade baixas, portanto, precisa ocupar o caixa elevado com a expansão dos ativos e uma das formas é ampliar a carteira de crédito", explicou ele, em entrevista ao Broadcast.

No caso do banco Pine, os rumores de venda circulam no mercado, segundo fontes, há mais de um ano. Conforme antecipou o Broadcast, em outubro, a própria contratação de Alexandre Aoude, que veio do Itaú BBA, estaria relacionada a este movimento. Ele teria ido para o banco com a missão de prepará-lo para um novo controlador e conseguir o melhor preço possível pelo ativo.

A venda do Pine acontece em um contexto semelhante ao do BicBanco para os chineses. Os bancos médios, conforme uma fonte, estão com problemas de inadimplência. Tanto é que o BC tem estado nessas instituições com maior frequência do que exige a regulação. Como os ajustes implicam em aportes nas instituições, a venda para outro banco é uma alternativa.

Com patrimônio líquido de R$ 1,3 bilhão, o Pine soma R$ 10,885 bilhões em ativos. A carteira de crédito estava em R$ 9,8 bilhões. No terceiro trimestre, o lucro líquido do banco caiu para menos da metade em um ano, atingindo R$ 19 milhões. Sua Basileia encerrou setembro em 13,8%, acima dos 11% exigidos pelo BC.

Em comunicado ao mercado, o diretor de relações com investidores do Banco Pine, Norberto Zaiet Junior, afirmou que "não há quaisquer negociações em curso para alienação do controle acionário da companhia".

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