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'Banco privado se fechou para o setor'

Executivo diz que crédito para infraestrutura está muito difícil, o que pode atrapalhar plano de concessões do governo

Entrevista com

Carlo Bottarelli, presidente da Triunfo Participações e Investimentos

RENÉE PEREIRA, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2015 | 02h06

A Operação Lava Jato, da Polícia Federal, travou a concessão de crédito para praticamente todas as empresas do setor de infraestrutura. Em entrevista ao Estado, o presidente da Triunfo Participações e Investimentos (TPI), Carlo Bottarelli, afirmou que os bancos privados fecharam as portas para o setor. "Eles saíram da infraestrutura", disse o executivo, que teve dificuldade para fechar duas operações: uma foi resolvida e outra está na iminência de ser fechada, depois de alguns meses de atraso. Nos últimos anos, a TPI ganhou destaque nos leilões públicos, do governo federal e estadual. Além de duas hidrelétricas, a empresa detém participação em cinco concessões rodoviárias, na Portonave (SC) e no Aeroporto de Viracopos (SP), onde é sócia da UTC, empresa envolvida na Lava Jato. O presidente da UTC, Ricardo Pessoa, está preso. A seguir, trechos da entrevista:

O setor está com dificuldade para conseguir financiamento?

Os bancos privados saíram do setor. Saíram totalmente. Banco privado fechou para infraestrutura, independentemente de a empresa estar ou não envolvida na Lava Jato. E isso acaba complicando na medida em que parte dos financiamentos do BNDES é repassado por banco privado. Não é que o BNDES esteja atrasando ou esteja dificultando. Aquilo que um ano atrás era fácil de conseguir, como uma fiança bancária, hoje está muito difícil. Complicou.

Como a empresa está lidando com isso já que tem alguns projetos em andamento?

Graças a Deus eu só estou com BNDES. Mas o BNDES exige um empréstimo-ponte que sai pelo banco privado. A gente estava com todos os pontes negociados. Onde deu uma atrapalhada? Em Viracopos, por causa do nosso sócio (UTC, envolvida na Lava Jato) tivemos um atraso de 30 dias nas aprovações do BNDES, mas isso já está superado. E temos tido dificuldade na segunda parcela do empréstimo ponte do BNDES que era amarrado a uma fiança para a Concebra (concessionária que detém a concessão da BR-060, BR-153 e BR-262). Estamos desde dezembro buscando essa fiança e agora temos o compromisso do Banco do Brasil para liberar em meados de abril. Eles vão dar a fiança. O banco anterior, que era o Santander, pôs condições tão difíceis que a gente teve de chamar outro banco.

De quanto é essa carta fiança?

Tenho um contrato de empréstimo-ponte assinado com o BNDES de R$ 1 bilhão. Desses R$ 530 milhões eram clean (sem garantia) e R$ 530 milhões cobertos pela fiança. A gente recebeu a primeira tranche e fomos atrás da segunda tranche e aí complicou. O banco que era o repassador se retraiu e tivemos de buscar outro banco para a operação. E até esse novo banco entender toda a operação demorou um pouco. Estamos desde dezembro buscando o empréstimo.

O projeto teve interrupção? 

Não, porque fizemos um aporte de R$ 120 milhões. E pegamos o que chamamos de pinguela, que é o ponte do ponte. Fizemos uma "pinguelinha" e com isso chegaremos até abril (quando se espera que o Banco do Brasil libere o empréstimo). O custo subiu um pouco, mas o projeto é grande. A holding fez um empréstimo com o BicBanco e nos emprestou. Mas onde vemos outro problema é no risco regulatório.

Em que área?

No setor rodoviário, com a lei do caminhoneiro e na energia. O GSF do gerador (déficit na geração das hidrelétricas) de energia elétrica, está sendo usado de uma forma insana porque o governo não quer decretar um racionamento. Isso está pesando na costas do gerador. Hoje estamos pagando uma penalidade de 22% da energia compromissada e sendo obrigado a comprar no mercado à vista, no PLD. Isso é um risco que não está nas nossas contas. Pior: se a gente for investigar a origem desse risco vai ver que ele nasce da deficiência da agência reguladora do setor. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) de cinco em cinco anos teria de rever a capacidade das usinas. E tem usinas que geram muito menos do que tem de garantia. Estão obsoletas. O reservatório está menor. Estão gerando menos há muito tempo. A obrigação da agência seria reduzir esse número. Quando você faz isso você vê que o déficit de energia no País é muito maior do que se imagina porque a capacidade instalada é menor. Isso tudo afugenta o investidor.

O governo promete um pacote de concessões para ajudar no desempenho da economia. Neste momento, com o mercado de crédito retraído, é viável?

Hoje falta capacidade financeira no País para um pacote de concessões grande, como ocorreu no passado. As antigas concessões só saíram naquele nível de desconto por causa do financiamento. Não digo que não vai sair, mas esse custo vai para a tarifa. Se a tarifa não estiver bem dimensionada corre o risco de o leilão dar deserto (sem propostas). Com taxa de retorno de 7,5%, nós não entramos.

Qual a taxa de retorno ideal?

Para bancar todos esses riscos e custo, tem de ser de dois dígitos. No PIL (Programa de Investimento em Logística), o BNDES financiava 80%. Hoje vamos ter uns 50%. A diferença será capital próprio e de terceiros. E é mais caro. Por isso a taxa de retorno tende a crescer. Se o governo sair com taxa baixa, não vai ter interessado.

Por outro lado, quem tiver dinheiro terá oportunidades?

Mas ele quer aplicar?

O sr. quer?

Depende. Com taxa baixa não quero. Veja a Hidrelétrica de Itaocara. No próximo leilão, vão trazer o projeto de volta. A usina já foi a leilão duas vezes e não teve interessado. Se oferecerem a usina com o mesmo preço ninguém vai querer.

A empresa tem interesse em PPPs?

Neste momento não. Estudamos algumas, mas não entramos. PPP é uma concessão ruim. Se fosse boa seria uma concessão simples. Como não é tem de ter uma contrapartida. Neste momento não dá pra depender de governo federal ou do estadual.

A parceria com a UTC trouxe problemas para a empresa?

Trouxe uma insegurança no mês de dezembro, quando o BNDES tinha de aprovar o financiamento. O executivo não vai assinar um enquadramento de um projeto se há uma empresa investigada. Foi pedido para a AGU (Advocacia Geral da União) um parecer para mostrar que nesse caso a empresa investigada não era controladora. Atrapalhar um projeto naquela magnitude não fazia sentido. Quem tomou a dívida foi a Aeroportos Brasil. Os sócios deram aval solidário.

O sr. acha que deve haver mudanças na lei de concessões ou de licitações para reduzir o nível de corrupção nos contratos?

Não. Isso não é um problema de concessão. É problema de código penal. O desestimulo da lei anticorrupção proposta é muito forte, pois pega as empresas em cheio. A lei de concessões pode ser melhorada.

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