Banco ruim (1)

Acaso pode uma árvore má dar bons frutos? Pois, ao contrário do que diz a sabedoria evangélica, o governo Barack Obama acha que sim. E está preparando um esquema em que o "banco bom" (good bank) será separado do "banco ruim" (bad bank). Esse banco ruim seria assumido pelo Tesouro e a partir daí o mais grave problema do sistema bancário global se resolveria.O problema surgiu e é global porque, em consequência de lambanças já conhecidas, a maioria dos bancos atolou no chamado lixo tóxico, uma das denominações dadas às aplicações bancárias de retorno duvidoso ou improvável. São as tais hipotecas podres e empréstimos feitos a empresas quebradas, a pessoas físicas sem renda para honrar compromissos financeiros ou, ainda, a outros bancos atolados no mesmo brejo.Em setembro já havia o problema central dos créditos podres, mas eles eram entendidos como administráveis, já que os principais governos envolvidos na crise pareciam ter fechado o consenso de que banco importante não quebraria. Mas, por barbeiragem ou sabe-se lá por quê, o secretário do Tesouro do governo Bush, Henry Paulson, abandonou o Lehman Brothers à sua própria sorte. A partir daí o pânico se instaurou no sistema e os próprios bancos se recusaram a socorrer outros bancos, pois temiam o abraço de afogado. O crédito parou e, assim, parou o sistema produtivo global, até hoje mergulhado na recessão.Ficou claro que qualquer saída exigiria solução prévia para os bancos, para livrar seus patrimônios dos títulos imprestáveis.A primeira ideia que apareceu foi a de que o Tesouro comprasse esses títulos. E este é o pressuposto central do pacote de US$ 700 bilhões de Paulson. O grande problema dessa solução é o fato de que não se sabe a que preços recomprar esses ativos podres. Mais da metade desses recursos já foi liberada para os bancos e, no entanto, o problema continua. Ninguém sabe o que deixou de ser podre e o que ainda há de podre na carteira dos bancos. Não é à toa que o crédito ainda não conseguiu fluir.A ideia seguinte, do primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, é a de recapitalizar os bancos. No fundo, o problema existe porque os bancos estão excessivamente alavancados, ou seja, emprestaram ou aplicaram recursos muito acima da capacidade técnica. Em princípio, os bancos podem fazer empréstimos até 10 ou 12 vezes seu patrimônio líquido e, no entanto, se viu alguns com mais de 30 vezes.Capitalizar os bancos exige estatização total ou parcial do sistema, e isso traz uma penca de dificuldades. A primeira consiste em saber qual seria o volume adicional de capital necessário para blindar o banco contra insolvências. Outra, em operar o banco no formato da administração pública, sujeita a procedimentos diferentes dos vigentes num banco privado, o que requer concursos públicos para escolher seus funcionários e a instauração de licitações para aplicação de recursos.Há a questão política de despejar recursos do contribuinte para salvar instituições mal administradas. Nem a estatização garante o restabelecimento definitivo do crédito. Então, que sentido faria capitalizar os bancos?(Fica para amanhã a avaliação do que significaria a criação dos tais "bancos maus", a versão globalizada do que foi aqui no Brasil o tão criticado Proer.)

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