Banco teme calote e eleva custo do crédito

Margem cobrada em financiamentos atinge o mais alto nível desde fevereiro de 2009

FERNANDO NAKAGAWA, BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2011 | 03h07

Ignorando a queda da taxa básica de juros desde agosto, o mercado de crédito tem piorado nos últimos meses. Em meio ao agravamento da crise internacional e com mais sinais de desaceleração no Brasil, a inadimplência subiu em outubro para o nível mais alto em dois anos.

Para cobrir o prejuízo com calotes, bancos aumentaram a margem cobrada nos financiamentos para nível não visto desde o início de 2009. O quadro deteriorado foi o pano de fundo para o Banco Central (BC) decidir retirar amarras e incentivar o crédito no começo de novembro.

Dados apresentados ontem pelo Banco Central revelam parte importante dos motivos que levaram o governo a incentivar financiamentos para o consumo no começo do mês.

A intenção da equipe econômica é incentivar a economia e, ao mesmo tempo, reverter o que ocorre desde meados do ano, quando calotes passaram a aumentar e bancos começaram a elevar as margens cobradas nos empréstimos, o spread bancário. Com as medidas divulgadas há duas semanas, o BC quer baratear o crédito e abrir espaço para quem estiver com dificuldade para pagar empréstimos antigos, possa renegociar a operação em condições melhores.

Em outubro, bancos pagaram média de 10,6% de juro para conseguir dinheiro com investidores. Esse dinheiro foi emprestado aos clientes com juro médio de 39,5%. Isso quer dizer que a diferença entre as taxas, de 28,9 pontos, foi para o caixa do banco para cobrir custos, impostos e compor o lucro da casa.

Esse é o spread bancário, que, além de crescer ante os 28,1 pontos de setembro, atingiu o mais alto nível desde fevereiro de 2009, quando o Brasil estava no turbilhão da crise anterior e o BC corria para apagar o fogo vindo do exterior. Naquele mês, o spread era de 29,7 pontos.

Com margens maiores, o custo dos empréstimos cresceu. Na média, famílias pagaram juros de 47% no mês passado, taxa mais elevada desde maio de 2009. "Bancos estão cautelosos porque são crescentes os riscos com a crise externa e a desaceleração da atividade no Brasil pode estar sendo mais forte que o previsto", diz a economista da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro.

Calote. Nas instituições financeiras, prevalece o conservadorismo, e a leitura é de que a crise e o menor crescimento do País devem arrefecer o mercado de trabalho e a renda. Com menos emprego e salário, diminui a capacidade de pagamento dos clientes e o calote sobe.

Parte desse efeito já é observada. Em outubro, a inadimplência média subiu de 5,3% para 5,5% das operações de crédito, número mais elevado desde novembro de 2009. Isso quer dizer que empresas e famílias deixaram, há mais de 90 dias, de pagar empréstimos que somam R$ 56,5 bilhões. Em apenas um mês, o calote cresceu R$ 2,5 bilhões.

Alessandra Ribeiro diz que dados da pesquisa mensal de emprego de setembro já sinalizavam queda de renda especialmente dos brasileiros que trabalham por conta própria e sem carteira assinada. Esses, diz a economista, tendem a ser os primeiros a entrar na fila da inadimplência.

O chefe do departamento econômico do BC, Túlio Maciel, disse que a greve dos bancários que perdurou durante a primeira quinzena de outubro também teria piorado os números do mês passado.

Segundo ele, sem funcionários, muitas agências não abriram, o que dificultou o acesso dos clientes às operações consideradas mais baratas, como o consignado. "O acesso a essas operações ficou mais restrito até pela impossibilidade de o cliente entrar na agência."

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