Banco tinha plano para abordar fundações

Lista dos políticos com poder para abrir portas de 250 fundações foi pedida pelo presidente do Panamericano

O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2011 | 03h03

A troca de e-mails capturada pela Polícia Federal nos computadores do Panamericano mostra que em 2009 a direção do banco montou um ambicioso plano para fazer negócios com fundos de pensão de empresas estatais. A chave para ganhar essas contas estaria no apoio dos políticos que apadrinhavam as entidades.

O então presidente do banco, Rafael Palladino, ordenou levantamento para descobrir quem eram os políticos com poder para abrir portas em cerca de 250 fundações, de estatais federais e estaduais, que tinham patrimônio superior a R$ 610 bilhões.

Os executivos falavam em procurar apoio do senador José Sarney (PMDB-AP) e do então senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Em fevereiro de 2009, Palladino recomendou a seus interlocutores que procurassem Sarney, "que é muito amigo do grupo".

Na mensagem para Luiz Sandoval, então braço direito de Silvio Santos, Palladino escreveu: "Você conhece bem o Sarney, não é? Liga para ele dando parabéns por ter ganho a presidência do Senado e depois pedimos abertura nas fundações que ele manda".

A assessoria de Sarney rechaçou participação do presidente do Senado em negócios relativos a bancos e fundações. A assessoria confirmou que Sarney é amigo de um antigo representante do Grupo Silvio Santos em Brasília, mas que não o vê há bastante tempo. Anotou, ainda, que Luiz Sandoval, ex-braço direito de Silvio, já esteve com Sarney, mas para cuidar de assuntos da área de comunicação. A assessoria destacou que "é muito comum" pessoas usarem indevidamente o nome de autoridades para abrir portas.

A análise dos e-mails mostra que os executivos do Panamericano reviraram as entranhas dos fundos de pensão que estavam no alvo, em busca de informações que pudessem ajudá-los a se aproximar das pessoas certas.

Numa dessas mensagens, Carlos Alberto Azevedo, interlocutor frequente de Palladino e do então diretor financeiro Wilson de Aro, enviou relatório em que dizia ter apurado que as Fundações Eletros e Real Grandeza eram "tocadas" pelo ministro de Minas e Energia Edison Lobão, "porém quem estaria por trás na verdade é o Sarney". "No caso da Real Grandeza, teremos que esperar que o presidente caia."

Outra correspondência, de Palladino, em 7 de janeiro de 2009, traça o plano ousado de aproximação das fundações. "Ok, vamos acompanhar, as fundações têm de ter cada uma um responsável e suas respectivas metas. Temos de montar uma equipe de captação melhor do que tudo que fizemos até agora. Carlos, tem outra coisa, veja bem em off quem são as pessoas que têm influência nas fundações e em quais."

Um e-mail de Palladino, de março de 2009, fala em "abortar a propina". Diz que "é ruim para todos da ABBC (Associação Brasileira de Bancos) conversar assuntos do tipo que conversaram ontem em órgão de classe". Ele chama a atenção para a construtora Camargo Corrêa, alvo da PF na Operação Castelo de Areia. "Vamos tentar abortar este pagamento de propina".

O presidente da ABBC, Renato Oliva, afirmou que, durante sua gestão, Palladino nunca participou de nenhuma reunião no prédio da entidade. O executivo disse ainda que, embora Adalberto Savioli, diretor do banco, fosse conselheiro da associação, ele era bastante ausente. "Nunca ouvi falar desse assunto (propina) nas reunião da ABBC." / F.M., D.F., L.M., M.G. e RENNÉ PEREIRA

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