Marx Vasconcelos/Estadão
Marx Vasconcelos/Estadão

Bancos avançam com Plano Amazônia, mas especialista defende velocidade maior para financiamentos

Itaú, Santander e Bradesco dizem ter superado a meta, anunciada no ano passado, de R$ 100 milhões em empréstimos para negócios sustentáveis na região

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 10h00

O artesão Sílvio Neves, conhecido na região de Icoroaci, em Belém (PA), trabalha como artesão há 45 anos. Entre seus principais produtos estão vasos de cerâmica, tradicionais na capital paraense, que custam entre R$ 10 e R$ 350. Toda a sua produção era feita em um barracão de madeira, o que impossibilitava a instalação de um forno para finalizar o processo de produção. “Eu tinha que dar uma grande volta para acessar um forno, mas aí consegui um empréstimo e substituí o barracão de madeira por alvenaria e consegui instalar o forno”, diz o artesão, que é conhecido como Jandaia.

Esse empréstimo aconteceu no ano passado, quando um representante do Santander bateu à sua porta oferecendo crédito. Em parceria com outros profissionais da Associação de Artesãos de Icoroaci, eles conseguiram levantar R$ 20 mil - metade desse valor foi para Jandaia fazer a reforma do seu espaço. “Antes, eu tentava ir atrás de empréstimos, mas as taxas eram muito altas. Agora, consegui um que consigo pagar”, diz. O contrato de Jandaia faz parte do programa Santander Prospera em que o banco cobra juros de 2% a 4% ao mês e o pagamento ocorre semestralmente.

Esse projeto faz parte da investida do Santander no Plano Amazônia, esforço do banco - juntamente com Itaú e Bradesco - para gerar projetos que tragam riqueza para a região da Amazônia, mas que, ao mesmo tempo, protejam o bioma e o livre do desmatamento. Em 2020, as três instituições anunciaram que destinariam um crédito de, pelo menos, R$ 100 milhões para negócios sustentáveis e de pequenos empreendedores.

Um ano depois, os três bancos dizem que esse valor já foi ultrapassado, mas não imagine quantias bilionárias ainda. Enquanto Bradesco e Itaú dizem que os números não estão consolidados, o Santander afirma que já emprestou R$ 270 milhões a negócios na região da Amazônia Legal. Uma das maiores oportunidades encontradas pelo banco foi no plantio e produção do óleo de palma, que recebeu R$ 233 milhões divididos em diversos investimentos. “Quando começamos a fazer os primeiros trabalhos, percebemos que era uma grande oportunidade. Percebemos um espaço muito grande”, diz Caroline Perestrelo, superintendente comercial do Santander Brasil.

Os próprios bancos admitem que são valores iniciais, e até mesmo simbólicos, e que o dinheiro destinado para essa região deve crescer. A questão é que não há planos tão bem definidos, mas estudos e buscas por oportunidades. Segundo Marcelo Pasquini, head de sustentabilidade do Bradesco, o banco está de olho na integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF). “É uma área que vai expandir e vai ultrapassar bastante os montantes de R$ 100 milhões. Para acelerar o processo, contratamos engenheiros agrônomos para dar assistência técnica e identificar oportunidades na região”, diz Pasquini.

O Itaú assumiu o compromisso de contribuir com R$ 400 bilhões para o desenvolvimento sustentável até 2025. Segundo Luciana Schneider, superintendente de relações institucionais, sustentabilidade e negócios inclusivos, uma parte desse dinheiro com certeza irá para a região da Amazônia Legal.

Expansão

Os bancos estão em posições diferentes na conquista por espaço na Amazônia. Enquanto o Bradesco está presente em boa parte dos municípios da região, o Santander vem aproveitando a oportunidade da Amazônia Legal para conquistar mais espaço. O Itaú, por sua vez, ainda está entendendo como pode se expor mais ao agronegócio, área em que tem bem menos participação em comparação aos rivais, e também chegar a cidades do interior - sua força está mais nas grandes cidades.

Apesar dos avanços, a visão de especialistas é a de que é necessário avançar de maneira mais acelerada. O climatologista Carlos Nobre, que tem projetos de biofábricas de cacau e cupuaçu apoiadas pelo movimento, acredita que o País tem menos de uma década para resolver os problemas da região. “Precisamos ampliar políticas públicas no Brasil e acelerar esse processo de floresta em pé e é essencial que o sistema financeiro financie isso”, diz Nobre.  

No ano passado, os bancos anunciaram dez medidas prioritárias, mas quatro ficaram com maior destaque: desmatamento zero na cadeia pecuária, financiamento a mais projetos de bioeconomia, regularização fundiária e educação e inclusão e educação financeira.

O que avançou mais foi a questão da indústria frigorífica, onde os três bancos se sentaram para conversar com frigoríficos como JBS, Marfrig e Minerva. Foi criada uma lista de boas práticas e também indicadores para fiscalizar e medir melhor o impacto dessas empresas. No fim do ano será iniciada a análise desses dados. Pelo menos por agora, não há planos de restringir crédito, mas ampliar a educação dos clientes.

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