André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Bancos brasileiros captam mais meio trilhão de reais em ano de pandemia

No fim novembro, o estoque de títulos de captação bancária alcançou volume total de R$ 2,226 trilhões; desse valor, somente R$ 519,2 bilhões são dos certificados de depósitos bancários (CDBs)

Ernani Fagundes e Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 10h00

Os bancos brasileiros conseguiram atravessar a turbulência desencadeada pela pandemia da covid-19 sem problemas de liquidez. A procura dos investidores por um "porto seguro" e o arsenal de mais de R$ 1 trilhão do Banco Central para apoiar o sistema financeiro garantiram uma enxurrada de recursos. No acumulado do ano, o estoque de títulos de captação bancária se expandiu em R$ 540,4 bilhões, para um volume total de R$ 2,226 trilhões no fim de novembro, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Nessa conta, estão figuras tradicionais do setor, como os certificados de depósito bancário (CDBs), letras financeiras (LFs) e os Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs), títulos criados em meio à crise de 2009.

Dos R$ 540,4 bilhões, o grande destaque foram os CDBs. O estoque desses títulos cresceu R$ 519,2 bilhões no acumulado de 11 meses, segundo a Anbima. É o instrumento mais usado pelas instituições financeiras, que captam recursos diretamente com os clientes de varejo, incluindo os de alta renda, por meio do dinheiro depositado nas contas correntes. Para os bancos, a vantagem dos CDBs está na liberdade para utilizar os recursos para qualquer tipo de empréstimo.

Com a sobra de recursos diante da busca dos investidores por opções seguras para alocarem dinheiro durante a crise, as soluções do Banco Central para apoiar o setor em meio à turbulência ficaram em segundo plano. O conjunto de ferramentas, que incluiu, dentre outros, liberação de compulsório, empréstimos com lastro em ativos financeiros e flexibilização de capital, ultrapassou R$ 1 trilhão.

As medidas relacionadas a novos instrumentos de captação de recursos, porém, tiveram desempenho bem abaixo do potencial estimado pelo BC. É o caso dos novos DPGEs e das letras financeiras garantidas (LFGs) por ativos financeiros. Ambos, conforme dados da autoridade monetária, atingiram cerca de 10% do volume estimado.

Apesar disso, os instrumentos serviram, na opinião de um tesoureiro, de "apoio psicológico" aos bancos. "Foi positivo no sentido de que os bancos sabiam que tinham alternativas de captação de recursos sem precisar usá-las. Quando as LFGs e os DPGEs andaram, o mercado já estava se resolvendo de forma autônoma", diz ele, que prefere não ter seu nome revelado.

No caso dos novos DPGEs, foram emitidos R$ 22,6 bilhões até o início do mês. O instrumento foi usado por 74 instituições financeiras, principalmente bancos pequenos e médios e sociedades de crédito, financiamento e investimento. O potencial estimado pelo BC era de R$ 200 bilhões.

Além de elevada liquidez no mercado, os investidores tinham opções mais atrativas em termos de retorno, lembra o executivo de um banco médio. "Os investidores desses papéis também não tinham muitos recursos disponíveis para alocar", acrescenta outro.

No caso das letras financeiras garantidas por ativos financeiros, as emissões somaram R$ 63,2 bilhões, menos de 10% dos R$ 670 bilhões estimados pela autoridade monetária. Pesaram o alto custo de emissão, elevada liquidez e ainda o prazo de vencimento limitado a um ano. Há uma expectativa de que a última janela de emissão de LFG, agora em dezembro, seja mais promissora, conforme fontes ouvidas pelo Estadão/Broadcast.

Além atravessarem o ano de crise sem problemas de liquidez, os bancos também não devem ter grandes dificuldades em 2021, avalia a Fitch Ratings. "Bancos brasileiros entraram na crise bem capitalizados enquanto os investidores em busca de segurança migraram seus depósitos, principalmente, para grandes instituições financeiras, e garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) - uma espécie de seguro do calote dos bancos", avaliou o diretor sênior de instituições financeiras da Fitch na América Latina, Claudio Gallina, durante debate virtual. "A liquidez dos bancos aumentou e nós não esperamos qualquer mudança nessa tendência."

Desacelerou

Apesar disso, os CDBs desaceleraram o ritmo de crescimento em novembro, com alta de R$ 8,4 bilhões, conforme a Anbima. De acordo com o diretor de investimentos da BS2 Asset, Mauro Orefice, o segmento de fundos de renda fixa que investem em títulos bancários foi o responsável por esse resultado por causa da volatilidade dos preços dos títulos públicos.

"A volatilidade de títulos públicos como o Tesouro Selic afetou os fundos D+1, que utilizam papéis bancários em suas carteiras. Mas esses são fundos bem seguros e a demanda por papéis bancários deve continuar desde que se mantenham os spreads (prêmios) em patamares mais condizentes", prevê Orefice.

Do varejo ao institucional

As instituições financeiras também captam recursos de pessoas físicas através de papéis bancários isentos de imposto de renda, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs). Outros títulos de maior prazo e menor liquidez, como Letras Financeiras (LFs), Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs) e Recibos de Depósito Bancário (RDBs) são direcionados a investidores institucionais.

Pelos dados da Anbima do acumulado de 2020 até novembro, o varejo tradicional e o varejo alta renda estão dando conta da captação bancária via CDBs. E os institucionais estão contribuindo via DPGEs (alta de R$ 22,1 bilhões no ano) e RDBs (ganho de R$ 50 bilhões), mas estão reduzindo a exposição em Letras Financeiras (LFs), cujo estoque encolheu R$ 34,75 bilhões no período.

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