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Bancos centrais se rearranjam em um cenário macroeconômico de inflação alta e desemprego

Brasil retorna ao passado, dançando o samba macroeconômico de uma nota só: a Selic abrindo alas para a recessão entrar

Ernesto Lozardo*, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 04h00

A pandemia de covid-19 causou enormes desajustes macroeconômicos: elevação dos preços, queda do crescimento e enorme desemprego. É prematuro afirmar que a recente escalada inflacionária no mundo (incluindo o Brasil) originou-se unicamente por causa da expansão monetária. É preciso considerar a expansão fiscal; as restrições na oferta de insumos e componentes para a indústria e o agronegócio; o lockdown das pessoas; a guerra política sobre as vacinas; o aumento do preço do petróleo; e a crise energética. Sabe-se que cada um desses eventos teve sua parcela de contribuição. Chegou a hora do rearranjo de todos os preços macroeconômicos: juros, taxa de câmbio, taxas de inflação e de salários.

Nos Estados Unidos, foi muito rápida a recuperação econômica pós-pandemia, provocando superaquecimento no mercado de trabalho, com desemprego em 3,9% e inflação recorde de 7%. Na zona do euro, o desemprego atingiu 7%, com inflação recorde de 5%. No Brasil, a inflação é a terceira maior entre os países do G-20 (10,06% em 2021) e a taxa de desemprego é uma das mais elevadas (11,7%), ficando apenas abaixo da Espanha (13,3%).

A rápida recuperação econômica dos Estados Unidos e da zona do euro deveu-se à expansão monetária e fiscal, porém este feito chegou ao fim. No Brasil, o Banco Central (BC) foi o primeiro a elevar os juros. No início do terceiro trimestre do ano passado, alguns economistas da academia alertaram o BC sobre a urgência na elevação da Selic.

O Fed (banco central dos Estados Unidos) anunciou que, em março, inaugurará a redução da compra de ativos financeiros e, mais adiante, a diminuição da sua carteira. O Banco Central Europeu (BCE), por sua vez, restringirá os estímulos monetários. Essas medidas provocarão o aumento das taxas de juros, desvalorização cambial, redução gradual da inflação e moderado impacto no mercado de trabalho.

Mesmo assim, a decisão do Fed gera preocupação no tocante à sincronização dessas medidas com as taxas de juros em diferentes mercados. A dimensão da carteira do Fed é preocupante: em dois anos de pandemia, ela saltou de US$ 5 trilhões para US$ 9 trilhões (4,5 vezes o PIB brasileiro).

Jerome Powell, presidente do Fed, quer evitar que haja uma massiva venda de títulos do Tesouro, com queda no preço e aumento abrupto no rendimento. Como ocorreu na gestão Bernanke.

No Brasil, a desconstrução da meta fiscal, somada às pressões inflacionárias, obrigará o BC a elevar a taxa Selic para 12,25%, e, assim, trazer a inflação próxima de 5%. Isso representará juros reais de 7,25% ao ano. O descontrole fiscal é mortal para o crescimento econômico. Em resumo, o Brasil retorna ao passado, dançando o samba macroeconômico de uma nota só: a Selic abrindo alas para a recessão entrar. 

*PROFESSOR DE ECONOMIA DA EAESP-FGV. É AUTOR DO LIVRO 'O.K., ROBERTO. VOCÊ VENCEU! O PENSAMENTO ECONÔMICO DE ROBERTO CAMPOS'

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