Bancos dos EUA começam a se afastar da crise

Maiores bancos americanos têm lucro acima do esperado, num sinal de que a era do socorro financeiro pode ter ficado para trás

ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h16

Os grandes bancos dos Estados Unidos surpreenderam os investidores e anunciaram lucro acima do esperado no segundo trimestre, sinalizando que os prejuízos causados pela crise financeira de 2008, e que levaram várias instituições a precisar de socorro financeiro de Washington, podem ter ficado para trás.

Ganhos maiores com operações em tesouraria e bancos de investimento, que incluem coordenação de ofertas de ações e fusões, provocaram fortes altas nos lucros das maiores casas financeiras, alguns para níveis recordes.

Os seis maiores bancos do país tiveram um lucro consolidado de US$ 23 bilhões no segundo trimestre, um aumento de 40% ante igual período de 2012. Mesmo instituições mais afetadas pela crise, como o Citigroup e o Bank of America, surpreenderam e bateram as estimativas dos analistas do setor. Este último, por exemplo, divulgou expansão de 63% nos ganhos. O Wells Fargo teve lucro recorde e o Goldman Sachs conseguiu dobrar seu resultado.

Diferente de outros momentos, não foram as operações de crédito que puxaram os ganhos na maioria das grandes instituições financeiras. Os empréstimos tiveram crescimento mais modesto nos seis maiores bancos. O lucro maior veio sobretudo de operações no mercado financeiro e de capitais e de corte de custos, incluindo a redução de despesas com provisões para devedores duvidosos. "Os bancos no geral estão superando as estimativas, com receitas melhores que o esperado, forte controle de despesas e melhora da qualidade no crédito", avalia Melissa Roberts, analista do setor financeiro da Keefe, Bruyette & Woods.

Negócios com commodities, moedas, juros e ações tiveram forte crescimento em praticamente todos os seis maiores bancos. Este ponto, aliás, contribuiu para trazer preocupações entre os analistas sobre o futuro dos ganhos nos próximos trimestres. A razão é que negócios como tesouraria e mercado de capitais são mais voláteis e podem ficar fracos nos próximos trimestres. Vai ser um desafio repetir o forte crescimento das receitas do segundo trimestre, avalia Anthony Polini, analista de bancos do Raymond James.

O maior volume de operações no segundo período do ano foi beneficiado pela política monetária do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), que vem injetando US$ 85 bilhões na economia todo mês em compras de ativos. Além disso, com a perspectiva de que essa política deve mudar até o final do ano, os juros dos títulos públicos americanos subiram, mais um fator que contribuiu para melhorar parte dos ganhos bancários.

Ações. No Goldman Sachs, as receitas na área de banco de investimento aumentaram 29%. O destaque ficou no segmento de emissão de ações, com expansão de 55% no faturamento em meio ao aquecido mercado de aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) neste ano em Wall Street. No Bank of America, o faturamento com transações em renda variável cresceu 60%, impulsionado pela alta dos índices de ações das bolsas dos EUA para níveis recordes.

O diretor financeiro do Goldman Sachs, Harvey Schwartz, destacou em uma teleconferência que a recuperação da economia americana ajudou o banco a melhorar seus números, compensando a desaceleração em outras regiões do planeta.

Na avaliação do diretor financeiro do Citi, John Gerspach, as famílias americanas ainda estão em um processo de desalavancagem. Por isso, têm tomado menos crédito, assustadas pelo que ocorreu na crise financeira mundial. O banco teve queda de 2% nos empréstimos na área de consumo nos EUA. Já as transações com ações, por exemplo, tiveram receitas 66% maiores e as da área de banco de investimento, cresceram 25%.

Desde 2008, os bancos americanos vêm se reestruturando em um esforço para melhorar seus balanços. O Citibank, por exemplo, vem reduzindo sua presença no exterior vendendo ativos não estratégicos. Além disso, o banco anunciou no ano passado a demissão de 11 mil funcionários. O Morgan Stanley vem tentando redirecionar suas operações para negócios menos arriscados, embora com receitas mais estáveis, como gestão de fortunas e também se desfazendo de ativos pelo mundo. No segundo trimestre, o lucro do banco cresceu 66%.

Os números do segundo trimestre mostram que os bancos conseguiram reverter as perdas e voltar a dar lucro. Mas apesar de bater as previsões, não trouxeram muita tranquilidade aos investidores. Primeiro pela questão de o resultado ser muito dependente de atividades mais voláteis. Em segundo lugar, porque o Fed está adotando regras mais rígidas para o setor financeiro, como as de Basileia 3, a partir de janeiro de 2014. Estas regras vão exigir mais reservas de capital de alta qualidade dos grandes bancos.

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