Bancos e empresas nos EUA tentam se reerguer após 4 anos de crise

Com a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, o Tesouro norte-americano teve de socorrer as instituições financeiras

Hugo Passarelli, do estadão.com.br,

14 de setembro de 2012 | 16h02

SÃO PAULO - A crise de 2008 levou consigo três dos maiores bancos de investimentos dos Estados Unidos - Bear Stearns, Merril Lynch e Lehman Brothers -, quase quebrou a maior seguradora do país, a AIG, e mergulhou todo o mundo num ciclo letárgico de desenvolvimento. Quatro anos depois, como estão as principais instituições financeiras socorridas pelo governo americano?

O Lehman Brothers, responsável pelo estouro da boiada, em 15 de setembro de 2008, é hoje uma fração do que foi no passado: parte foi adquirida pelo Barclays, logo após o anúncio da entrada no Capítulo 11 da Lei de Falências dos Estados Unidos. No entanto, o banco já saiu do processo de recuperação judicial e executa, desde março, um plano de pagar US$ 65 bilhões aos seus credores. Por um longo período, ainda deve responder a uma série de processos judiciais.

As agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, que estavam no olho do furacão do crise do setor imobiliário, dão passos lentos em sua recuperação e o governo dos EUA já estuda mudar as regras de ajuda às duas empresas. Hoje as duas agências são obrigadas a repassar 10% de seu lucro trimestral ao governo para recompor parte da ajuda dada em 2008, que somou US$ 188 bilhões. Como o setor ainda está frágil, é comum que as empresas registrem prejuízo, o que obriga a tomada de empréstimos junto ao próprio governo. Agora, a ideia é obrigar a compensação apenas nos períodos em que as agências reportarem lucro.

O Citigroup, parcialmente estatizado em 2009, ainda sofre com perdas originadas com a crise. O banco criou uma unidade para isolar os ativos imobiliários, a Citi Holdings, que ainda carrega para baixo os resultados da companhia.

No segundo trimestre, a divisão Citi Holdings ampliou suas perdas, de US$ 920 milhões ante US$ 661 milhões um ano antes. O grupo inteiro sentiu esse impacto: o lucro caiu 12%, para US$ 2,9 bilhões, contra US$ 3,34 bilhões na mesma comparação. Para os analistas, o dado representa o desempenho da companhia deste então - lenta melhora do balanço, mas desafios persistentes.

A seguradora AIG, que teve de ser socorrida pelo Tesouro dos Estados Unidos, parece ter deixado para trás o pior momento. A empresa reportou lucro de R$ 2,3 bilhões no 2º trimestre deste ano, um crescimento de 27% contra o trimestre anterior. Desde janeiro 2011, o Tesouro tem diminuído sua participação na empresa - a fatia já despencou de 92% para 22%, sendo que a última venda de ações, realizada nesta semana, totalizou US$ 18 bilhões.

O governo também está saindo, aos poucos, de outras instituições financeiras que ajudou durante a crise. Na quinta-feira, o Tesouro vendeu US$ 149,3 milhões em participações de cinco bancos: Alpine Banks of Colorado, First Community Financial Partners, F&M Financial Corporation of Clarksville, F&M Financial Corporation of Salisbury e Yadkin Valley Financial Corporation.

O Tesouro tem acelerado a venda de suas participações nos bancos resgatados por meio do Programa de Alívio para Ativos Problemáticos (TARP), mas o governo ainda possui fatias em 293 instituições, que devem cerca de US$ 9,6 bilhões à administração pública.

O risco de uma nova crise financeira não está descartado. Tanto é que o Fed (Federal Reserve, o Banco Central americano) iniciou nesta semana uma nova rodada do chamado afrouxamento quantitativo (QE3). A injeção de liquidez no mercado inclui compras mensais de US$ 40 bilhões em títulos.

Economia real

Na economia real, a fraco ritmo de desenvolvimento persiste. Há dois meses, a revista Economist escreveu, em sua versão online, um artigo sobre o tema, intitulado "A crise sem fim". Nesta semana, os Bancos Centrais de todo o mundo deram um recado bem explícito: o mundo está à beira de um novo ciclo recessivo. As autoridades já preveem uma rodada de revisões nas projeções de crescimento e que, até o fim do ano, a desaceleração da economia mundial se aprofundará.

Nos Estados Unidos, a reação no mercado de trabalho custa a chegar. Todas as semanas, os índices de ocupação são acompanhados de perto. Ora são comemorados, ora são motivo de pessimismo. A lenta retomada do emprego entrou para o jogo político e virou motivo de ataque de Mitt Romney contra Barack Obama.

Na Europa, a França é o mais recente país a anunciar fortes cortes de gastos governamentais para tentar reanimar a economia. Para este ano, o crescimento deverá ser perto de zero e, para o próximo, algo em torno de 0,8%, abaixo da expectativa inicial. A Grécia negocia os próximos passos com os credores internacionais. Em foco, os cortes de gastos que o governo terá de implementar.

No meio de tudo isso, Espanha, Itália e Portugal aparecem como as próximas candidatas a enfrentar dificuldades financeiras. O fato é tido como mais provável principalmente no caso de a epopeia grega se prolongar ainda mais. Com os recursos sendo destinados à Grécia, outros países podem não ter suporte para enfrentar eventuais turbulências.

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