André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Bancos estrangeiros aceleram saída da América Latina e instituições locais ganham força

Relatório do FMI mostra que bancos como Deutsche Bank, HSBC e Citigroup optaram por sair de vez de alguns mercados

Altamiro Silva Junior, correspondente, O Estado de S. Paulo

31 Março 2016 | 16h28

NOVA YORK - Grandes bancos internacionais, sobretudo dos Estados Unidos e Europa, estão deixando a América Latina em ritmo acelerado, afirma um estudo de economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado nesta quinta-feira. Sem novos entrantes de peso, instituições financeiras de países como Brasil e Colômbia vêm ampliando a presença em outros mercados da região.

Bancos como o espanhol Santander, os franceses Crédit Agricole e BNP Paribas, o alemão Deutsche Bank, o inglês HSBC e o norte-americano Citigroup tomaram iniciativas de reduzir a exposição em países da região ou sair de vez de alguns mercados, destaca o relatório. No Brasil, o Citi colocou suas operações de varejo para pessoa física à venda e o HSBC foi comprado pelo Bradesco.

Esse movimento de saída de bancos internacionais se intensificou nos anos que se seguiram à crise financeira mundial de 2008. Após grandes bancos quebrarem e outros precisarem de socorro financeiro emergencial, os governos da Europa, Estados Unidos e outros países apertaram as exigências de capital e a regulação para os bancos. Para se adequarem, essas instituições, muitas fragilizadas em seus próprios mercados domésticos, começaram a reduzir operações no exterior e a vender negócios não essenciais, ressalta o FMI.

"Nenhum grande banco europeu ou norte-americano entrou no mercado latino-americano para ocupar o lugar dos que saíram, o que resultou na consolidação crescente dos sistemas bancários domésticos em muitos países", afirma os autores do estudo, Charles Enoch, Mohamed Norat e Diva Singh. Por isso, o FMI destaca que bancos de países como Brasil e Colômbia estão ampliando a atuação regional.

No caso brasileiro, o relatório cita o Itaú, que sozinho tem mais ativos que quase "todo o sistema bancário do México", e tem perseguido uma estratégia de regionalização, seja por fusões e aquisições ou outros investimentos em países como Chile, Colômbia e México. O BTG também tem buscado se tornar um banco de investimento regional, ressalta o estudo.

Já na Colômbia, o grupo financeiro Aval comprou as operações do espanhol BBVA no Panamá e o Bancolombia comprou os negócios do HSBC. "Bancos regionais podem ocupar o papel deixado pela saída dos bancos estrangeiros", afirma o estudo. Ao mesmo tempo, o documento ressalta que o mercado brasileiro, com grandes bancos públicos e privados, é de difícil entrada para outra instituição regional.

O movimento recente de saída de bancos estrangeiros da América Latina se contrasta com o período que começou nos anos 90, quando os bancos estrangeiros começaram a aumentar a exposição na região, muitas vezes incentivadas pelos governos locais, que viam na chegada de grandes bancos da Europa e dos EUA uma forma de reforçar os mercados financeiros domésticos, abalados por uma sucessão de crises nos anos 80 e 90.

Integração. Para o FMI, os governos de países da América Latina devem buscar ampliar a integração financeira da região. A região é menos integrada que outras áreas do planeta e, entre medidas sugeridas pelo relatório, o Brasil deveria permitir a venda de bônus de empresas da região e de países vizinhos em seu mercado doméstico. A avaliação do FMI é que o fim do superciclo das commodities e o rebalanceamento da economia chinesa "produziram uma forte desaceleração do crescimento na maior parte da América Latina" nos últimos anos, além de problemas domésticos de alguns mercados. Essa mudança mostra a necessidade de "identificar caminhos novos e alternativos para o crescimento". Isso exige capital novo e mercados financeiros profundos, ressalta o documento.

"É evidente que os países latino-americanos terão de estudar uma mudança de estratégia para continuar a desenvolver seus mercados financeiros", afirmam os autores do estudo, Charles Enoch, Mohamed Norat e Diva Singh, destacando que pode ter chegado a hora de os governos repensarem a estratégia regional de integração.

Uma maior integração financeira na região seria positiva por diversos fatores, afirma o estudo, incluindo o aumento da diversificação do risco e maior concorrência em países onde a saída de bancos estrangeiros levou à ampliação da concentração bancária.

O FMI cita que há algumas iniciativas para aumentar a integração, mas é preciso avançar mais. Entre estas medidas, os países da Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru) lançaram o Mercado Integrado Latino-americano (Mila), com o objetivo final de unificar seus mercados de valores mobiliários. O relatório ressalta ainda que seria o momento oportuno para reanimar a antiga aliança do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) para a criação de um mercado comum entre seus membros, sobretudo agora que a Argentina tem um presidente que sinaliza disposição de mudanças.

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