Bancos estudam normas para depósitos "sensíveis"

Os grandes bancos internacionais, principalmente os que administram fortunas privadas, se preparam para assimilar novas diretrizes, que se encontram em fase de preparação, sobre os chamados " investimentos politicamente sensíveis" . Um dos objetivos das medidas é rejeitar dinheiro originário de autoridades de países controvertidos. Segundo um banqueiro francês revelou ao jornal Le Monde situa-se na categoria de ?sensível? o próprio patrimônio da família real saudita, pois " aceitar esse fluxo de dinheiro, de origem duvidosa, é atualmente muito arriscado". Na linguagem bancária utiliza-se o termo "peps", pessoas politicamente expostas, jargão que se aplica, principalmente, a personalidades que detêm funções proeminentes, tais como chefes de Estado, chefes de governo, ministros e altos funcionários que desejam aumentar suas fortunas no estrangeiro. Tudo será feito pelos bancos para dificultar a ação de pessoas corruptas que pretendam infiltrar seus ganhos ilegais no sistema bancário internacional. O próprio Comitê de Bale sobre o controle bancário, depois do escândalo envolvendo o ex ditador da Nigéria, Sani Abacha, cuja fortuna foi espalhada por bancos da Suíça, Grã-Bretanha, Luxemburgo e Liechtenstein, encontra-se à frente dessa campanha moralizadora do meio financeiro, reunindo doze grandes bancos do setor privado, especialistas em administrar fortunas - tais como a União dos Bancos Suíços, Barclays e Societé Générale. Todos eles chegaram a um acordo sobre a luta contra os investimentos de fundos desviados por personalidades políticas. Os mais visados por essas medidas são os príncipes sauditas e a família real Al Saoud - 6000 ou 7000 príncipes, segundo a última estimativa, um grupo familiar riquíssimo, mas também misterioso - a origem das fortunas que esta família mantém depositadas no exterior é muito pouco transparente. Um diretor de banco explica que, nessa fase de vacas magras, os depósitos sauditas são bem-vindos mas, por medida de segurança, antes de aceitá-los pediria, por precaução, a assinatura de seu presidente, autorizando a operação. De qualquer forma, um operador de um grande banco gestor de fortunas de Genebra admite que a aplicação dessas novas normas vai apresentar muitas dificuldades práticas, a começar pela opacidade da família saudita e suas relações com os próprios grupos bancários signatários do acordo. Esse é o caso do britânico HSBC, que controla 40% do Saudi British Bank, sem falar do Citibank, acionista do Saudi American Bank. Não se pode esquecer também que a organização de Osama bin Laden sempre foi ajudada, no plano financeiro, por diversos bancos controlados, de uma forma ou de outra, por interesses sauditas. Os Estados Unidos, Grã-Bretanha e Suíça são as três principais bases de desembarque do dinheiro saudita no exterior. Acredita-se que a concorrência entre os bancos poderá minar o dispositivo anticorrupção em preparação. Só a ameaça de maior controle tem provocado a transferências importantes de dinheiro sauditas para outras praças. Liechtenstein, por exemplo.

Agencia Estado,

23 de julho de 2002 | 13h57

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