Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

Bancos ficam mais rigorosos com financiamento

Aumento da inadimplência e agravamento da crise levam instituições a dificultar o crédito e aumentar o nível de garantias dos tomadores de empréstimos

Renée Pereira, de O Estado de S.Paulo,

17 de dezembro de 2011 | 22h22

SÃO PAULO - A escalada da inadimplência e o agravamento da crise internacional deixaram os bancos mais rigorosos na concessão de crédito neste Natal. Dinheiro tem, mas apenas para aqueles que representam menor risco para as instituições financeiras. O problema é que há uma demanda forte vinda de consumidores classificados como problemáticos.

"Será um Natal mais pobre, mais comedido", diz o economista da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicolas Tingas. Ele conta que a inadimplência começou a incomodar os bancos entre abril e maio. Primeiro imaginou-se que seria uma alta pontual, que se acomodaria ao longo dos meses. Mas isso não ocorreu e os indicadores continuaram a subir. A solução foi fechar o cofre com regras mais criteriosas para a concessão de crédito.

"Foi necessário elevar a nota de corte para controlar a liberação dos empréstimos", completa o presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Renato Oliva. Hoje, comenta o executivo, há dois tipos de clientes. Um é aquele que tem conta corrente, cartão de crédito e outras operações no banco. O outro é o consumidor que não tem conta corrente no banco, mas pega empréstimo pessoal e financiamento de veículo.

"No primeiro, a restrição se dá pela redução dos níveis de crédito disponível. No segundo, é preciso fazer uma escoragem mais rigorosa. Nesse caso, dependendo da nota de corte, concedo ou não o crédito", destaca Oliva, ressaltando que há dinheiro no mercado, mas está mais caro e a mais difícil de ser liberado.

O gerente executivo de Crédito do Banco Volkswagen, Thierry Soret, confirma o aperto nas linhas de financiamento. Segundo ele, o volume de pedidos aumentou nos últimos meses, mas o nível de concessão diminuiu. No ano passado, a média de aprovação estava em 58%. Neste ano, caiu para 49%. "É um recuo significativo e foi provocado especialmente pela qualidade do tomador."

Ele explica que, com prazos mais longos, acaba-se atraindo um perfil de cliente mais arriscado, com baixa bancarização, pouca experiência no mercado e renda menor. Até o mês de outubro a inadimplência do setor estava em 4,7% nos atrasos acima de 90 dias - 1,6 ponto porcentual superior ao verificado em igual período do ano passado.

"Com esse avanço, as instituições acabam ficando mais receosas do que antes", afirma o presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), Décio Carbonari de Almeida. Na avaliação dele, o principal motivador da escalada da inadimplência acima das expectativas é a inflação, que afetou o poder aquisitivo das famílias brasileiras.

Muitos consumidores que não conseguiram pagar suas prestações em dia acabaram voltando ao mercado para reestruturar suas dívidas. O movimento elevou ainda mais a demanda por crédito, destaca Tingas, da Acrefi. Segundo ele, esse cenário exige cautela e moderação, especialmente por causa das incertezas em relação ao mercado externo e o impacto na economia doméstica. "O nível de emprego e renda no próximo ano ainda é um ponto de interrogação. Se houver alguma queda nesses dois indicadores, o nível de inadimplência pode piorar."

Medidas de incentivo. Mas os executivos são unânimes em afirmar que o Brasil tem fortes instrumentos para controlar os reflexos externos no mercado nacional, especialmente por meio do crédito. "As reservas estão em US$ 351 bilhões, o compulsório pode ser mexido e ainda há vários impostos passíveis de redução, como o IOF", destaca Renato Oliva, da ABBC.

Exemplo disso é que bastou o governo afrouxar algumas regras de controle do crédito em meados do mês passado para o mercado sentir alguma reação. Segundo o diretor de Varejo do Santander, Pedro Coutinho, a remoção de medidas macroprudenciais já começou a melhorar os níveis de crédito, que despencaram em outubro.

 

"Da mesma maneira, os efeitos da redução do IOF para pessoa física devem ser percebidos com mais clareza em dezembro, que sempre é um mês bastante intenso para o mercado de crédito." Apesar dos índices de inadimplência, o diretor afirma que não foi necessário fazer nenhuma mudança na política de concessão do banco. Isso porque a equipe da instituição está orientada a oferecer soluções diferenciadas para cada tipo de consumidor.

Por enquanto, ninguém quer arriscar previsões para 2012. Mas a expectativa é que o índice de atraso nas contas do brasileiro atravesse o ano em alta e só comece a baixar no fim do primeiro trimestre. Isso se a crise internacional não se agravar ainda mais e se a economia interna voltar a reagir. "A preocupação nem é mais o Natal, que já está dado. O que interessa são as sinalizações para 2012, que por enquanto são negativas", afirma Nicolas Tingas, da Acrefi.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.